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Publicado em : 08/05/2017
Fundos estão vendidos e aumenta o medo de mais quedas

Por Arnaldo Luiz Côrrea

O mercado de açúcar em NY fechou a semana a 15.31 centavos de dólar por libra-peso no vencimento julho/2017, uma queda de 82 pontos na semana, ou o equivalente a mais de 18 dólares por tonelada. Os demais meses de negociação também não aliviaram. Quedas de 73 a 30 pontos, de 16 dólares por tonelada até 6 dólares por tonelada, com maior peso para os vencimentos mais curtos.

O cenário macro está prejudicando a análise mais criteriosa acerca do mercado de açúcar. O volume de vendas de commodities e ativos de risco em todo mundo embaralha a visão e nos faz perder o foco. No acumulado do ano, gasolina e açúcar caíram 21%, petróleo 17%, etanol 12%. Até os fundos “viraram a mão” e agora estão vendidos a descoberto no açúcar (estima-se em 20 mil lotes). Não é exatamente o tipo de notícia que gostaríamos de ouvir.

Apesar desse quadro sombrio para as usinas, acreditamos que o risco descendente do açúcar, nesse patamar de 15.31 centavos de dólar por libra-peso, é limitado. Não vai conseguir ficar muito tempo abaixo dos 16 centavos de dólar por libra-peso por questões estruturais: custo de produção (do Brasil e de outros países), proximidade com a paridade do etanol, aperto no fluxo de caixa afetando cuidados culturais e eventuais expansões para os próximos anos. Quanto mais o mercado cair de forma irracional e especulativa, mais violenta será a correção.

Em 17 de fevereiro último, em relatório exclusivo para nossos clientes, quando NY negociava a 20.30 centavos de dólar por libra-peso, dissemos que os preços do açúcar a partir de abril poderiam sofrer uma queda violenta caso não houvesse uma mudança significativa nos fundamentos. Não houve mudança e daquela data até 28 de abril assistimos atônitos ao contrato futuro de NY mergulhar de 20.30 para 16.04 centavos de dólar por libra-peso, ou seja, uma desvalorização de 21%. Existem muitas lições a serem tiradas desse mercado, mas a principal delas é a disciplina. Esse é um dos pontos que mais insistimos em nossas considerações acerca do mercado de açúcar e de qualquer commodity: é necessário haver disciplina para uma gestão de risco adequada.

Nosso modelo matemático (lembrem-se que modelos falham) indica que o preço médio para o mês de maio é de 16.51 centavos de dólar por libra-peso, ou seja 1% melhor do que o preço médio observado no mês abril, que foi de 16.34 centavos de dólar por libra-peso. Apesar de o fechamento de sexta ter sido muito abaixo desse valor e a média no mês de maio até aqui de 15.76 centavos de dólar por libra-peso, 16.51 parece otimista demais. Nossa visão é de que o mercado antecipou a pressão que ocorreria no pico da safra em julho. Esse tipo de antecipação já ocorrera antes. Em maio do ano passado o modelo indicava 14.78 e a média foi de 16.68 (ou seja, melhor), depois em novembro o modelo indicava 22.72 e a média efetiva acabou sendo menor: 20.87. Será que a queda apontada pelo modelo para ocorrer em julho, se antecipou?

Para junho, o modelo aponta para uma ligeira queda: 16.36 centavos de dólar por libra-peso. Julho deve ter a maior pressão e o modelo aponta para um desconto de 100 pontos em relação ao junho, ou seja, 15.36 centavos de dólar por libra-peso. A partir de agosto, o modelo acredita que os preços começam a se recuperar lentamente.
Especulativamente, pode-se dizer que a venda de uma put (opção de venda) com preço de exercício de 15.00 centavos de dólar por libra-peso (prêmio de 45 pontos no fechamento de sexta) e a venda de uma call (opção de compra) com preço de exercício de 17.50 centavos de dólar por libra-peso (prêmio de 12 pontos no fechamento da semana) se constituem em uma estratégia condizente com o que o modelo aponta. Caso o julho expire abaixo de 15.00, você estará comprado a 14.43 centavos de dólar por libra-peso; caso expire acima de 17.50, você estará vendido a 18.07 centavos de dólar por libra-peso.

Ao fazer uma projeção sobre a produção de cana para as próximas safras (até 2021/2022) englobando o Centro-Sul e o Norte/Nordeste, assumimos uma expansão total do canavial de 2% ao ano e mantivemos o mix de açúcar em torno de 47-48%. O resultado foi um déficit de cana acumulado de 115 milhões de toneladas ao longo dos próximos cinco anos. Esse volume corresponde a 10.6 bilhões de litros de etanol. Se o setor não investir na expansão da agroindustrial teremos forçosamente que importar etanol de milho e/ou gasolina A. Como assumimos na projeção que o mix vai atender prioritariamente ao mercado de açúcar, este não apresenta déficit.

Os dados são relativamente conservadores uma vez que estimam a frota de veículos leves para 2021 em 41.5 milhões de unidades, das quais 9 milhões a gasolina e 32 milhões de veículos flex. Conservadoramente, estimamos também uma frota ativa de motocicletas de 14 milhões de unidades. Mudanças nesses números em função de eventual melhora na economia depois de 2018 refletirão, obviamente, no déficit informado acima.

Quanto à estimativa do RenovaBio, objeto de nosso comentário da semana passada, de que o Brasil deverá consumir em 2030 cerca de 50 bilhões de litros, os números da Archer dão conta de que naquele ano o consumo total de combustíveis deverá ser de 75.7 bilhões de litros, dos quais 40.1 bilhões de litros de gasolina A (sem mistura) e 35.6 bilhões de litros de etanol (14.8 de anidro e 20.8 de hidratado).

 

 


Fonte: Archer Consulting
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