Por onde anda o açúcar da região nordestina do Brasil?voltar

Publicado em : 03/10/2017
Por onde anda o açúcar da região nordestina do Brasil?

Por: Fernando Dias

Separar a história do Brasil e do açúcar é impossível, nós nos tornamos um país por causa dele enquanto negócio que viabilizou nossa colonização, e começamos no Nordeste. Em que pese sermos hoje uma Região que se caracteriza pela pobreza extrema e por um desenvolvimento deficiente, outrora fomos a mais rica das regiões agrícolas das américas e talvez, do mundo inteiro. Atualmente, contudo, o negócio do açúcar por estas bandas anda cada vez mais sumido, os canaviais não dominam mais as paisagens campesinas e os usineiros não são mais a expressão da elite empresarial. O negócio do açúcar não é mais relevante no Nordeste?

Em verdade, ele ainda é uma das principais atividades industriais da Região, e ainda é um dos principais itens de nossa pauta de exportação. Mas o negócio do açúcar mudou muito ao longo dos séculos, inclusive que não é mais só a açúcar e agora é sucroalcooleiro. É certo que os canaviais não são mais tão visíveis, porém se engana quem acha que a produção desapareceu. Considerando os dados do IBGE, por exemplo, a área plantada caiu no Nordeste em torno de 20% entre fins da década de 80 e o período atual, e produção caiu menos ainda, em torno de 10% devido aos ganhos de produtividade. Já os estabelecimentos que produzem açúcar e álcool, com base nos dados da RAIS/MTE, declinaram marginalmente.
Estes números não parecem compatíveis com a visão sobre o setor na Região, a perda de importância do mesmo parece ser bem mais acentuada. Falha de percepção do público? Não, a chave é olhar o emprego. Com base nos dados da RAIS/MTE e do CAGED/MTE temos que a redução de postos no Nordeste para os últimos 10 anos chega a 110 mil vagas no setor enquanto em todas as demais Regiões ele cresceu. De fato, a extinção de vagas no setor sucroalcooleiro para o Nordeste foi quase duas vezes maior que a criação de vagas no resto do país. O que houve? Mecanização.
Quando se analisa o quadro de produção e produtividade nacional se percebe o motivo. Com base nos dados do IBGE temos que a produção brasileira de cana-de-açúcar entre a década de 1980 e hoje cresceu três vezes, e todas as Regiões cresceram expressivamente, menos o Nordeste que teve perda. A chave? Uma combinação de produtividade e área disponível. De fato, hoje o Nordeste produz mais apenas que o Norte e (marginalmente) que o Sul. Adicionalmente em todas as Regiões do país a produtividade gira em torno de 72 toneladas por hectare, e por aqui em torno de 55. O Sudeste e Centro-Oeste produzem 11 vezes mais cana que o Nordeste, com produtividade 30% mais alta, foi-se o tempo que de nossa hegemonia e eles não parecem que voltarão.
Então o setor vai bem no Brasil, fora o Nordeste? O setor continua muito sensível as oscilações no preço internacional do açúcar e o mecanismo de amortecimento, o mercado de álcool combustível (uso direto e na mistura com gasolina), por vezes termina amplificando a crise quando se depara com políticas intervencionistas que afetam o preço dos combustíveis com um todo. É um mercado de altos e baixos, mas que na média vem crescendo no Brasil a exceção do Nordeste. Atualmente, em ciclo de baixa, em torno de 5% das unidades industriais estão em falência e 10% em recuperação judicial.
O quadro atual sugere que o Brasil continua sendo o mais competitivo do mundo em açúcar e álcool, mas que precisa que mercados sejam criados para absorver nossa imensa potencialidade. Já internamente, em termos regionais, a produtividade do insumo principal, a cana, parece que irá alijar a histórica região produtora do Nordeste em prol dos campos paulistas e cerrados do Centro-Oeste. Mesmo que a economia global volte a crescer aceleradamente, mesmo que os mecanismos de controle globais do clima voltem a pauta dos países centrais, é improvável que o setor volte a ser o centro de nossa atividade industrial. Ele deve continuar importante, mas não mais hegemônico. Este tempo já passou faz muito, e não deverá voltar.

* Fernando Dias é professor do Departamento de Economia da UFPE


Fonte: Diário de Pernambuco
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