A cana que vem do frio: RS lidera indústria de melaço e ainda se destaca em cachaças
18-05-2026
Cachaças premiadas e liderança na fabricação de melado mostra força da cultura da cana no Estado
Por Marcelo Beledi — Porto Alegre
Com apenas três anos de atuação formal, a Destilaria Alto da Cruz já coleciona premiações. Apesar de a cachaça ser seu carro-chefe, foi com os licores que a agroindústria conquistou, em 2025, uma medalha de prata e outra de bronze no Brasil Cup, um dos principais concursos nacionais de avaliação sensorial de bebidas.
E, mesmo antes de participar de qualquer premiação, o empreendimento já começou com um recorde: é a cachaçaria mais ao sul do Brasil. Localizada no interior de Canguçu, no Rio Grande do Sul, a agroindústria está a 230 quilômetros da fronteira com o Uruguai – muito distante das áreas das regiões Sudeste e Nordeste do Brasil, tradicionalmente ligadas à cultura da cana.
A história da Alto da Cruz é um exemplo do dinamismo e das características locais da cultura da cana-de-açúcar em solo gaúcho. Embora não tenha grandes extensões de canaviais como em áreas mais ao norte, onde vastas lavouras destinam-se, em grande parte, a abastecer usinas de etanol e açúcar, a produção no estado concentra-se em pequenos empreendimentos familiares, que usam a cana como matéria-prima para bebidas, açúcar mascavo e, principalmente, melado, um xarope adocicado e espesso que se pode consumir puro ou, então, como ingrediente para rapaduras e outras guloseimas.
A dimensão da importância social da cultura no Rio Grande do Sul fica explícita justamente no enorme contingente de agroindústrias que se dedicam à atividade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar de concentrar apenas 0,11% dos canaviais do país, o estado tem o maior número de fábricas brasileiras de melado.
De acordo com o Censo Agropecuário de 2017 (último dado disponível), 14.412 agroindústrias do Rio Grande do Sul dedicam-se à produção desse derivado da cana, um número quase cinco vezes maior do que o de Santa Catarina, que aparece em segundo lugar no ranking, com 3.221 estabelecimentos.
Em relação às cachaçarias, o Rio Grande do Sul ocupa o terceiro lugar, com 591 indústrias, atrás de Minas Gerais (5.512) e Bahia (2.890).
“A cana-de-açúcar é muito importante para milhares de famílias de produtores do Estado. Embora tenham pequenos cultivos, elas conseguem obter uma renda interessante por meio das agroindústrias de melado, açúcar mascavo, rapadura e cachaça, muitas vezes com ganhos que eles não poderiam obter com a produção de grãos ou pecuária”, afirma Alencar Rugeri, gestor da área de culturas anuais da Emater-RS, a empresa pública de extensão rural do Rio Grande do Sul.
“Atualmente, a cultura tem uma importância maior do que feijão, por exemplo”, completa.
Uma produção inédita
A produção de cana-de-açúcar no Rio Grande do Sul pode ser uma surpresa para muita gente, em parte, por causa do fator climático: afinal, como um lugar onde faz frio intenso no inverno pode abrigar uma cultura tropical? Ocorre que, ainda que de fato o estado registre baixas temperaturas no inverno, algumas regiões, como o litoral, abrigam canaviais desde o início da colonização portuguesa da região, no século XVIII.
“Existem diversos microclimas e ambientes no estado que abrigam melhor as plantas do efeito do frio e que tornam o plantio possível. Dá para encontrar pequenas lavouras em praticamente todo o nosso território”, destaca o gestor da Emater.
Participação acanhada na área de cultivo
Foto: Globo Rural
Sérgio Delmar dos Anjos, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, confirma que a ocorrência de temperaturas negativas pode gerar perdas nas lavouras. Mesmo assim, o Rio Grande do Sul tem algumas condições que são vantajosas para a cultura.
“No verão, temos mais luz solar para o desenvolvimento da planta. E, no inverno, o frio, quando não é muito intenso, ajuda na maturação da cana. Às vezes, a parte aérea (da planta) morre com temperaturas muito baixas, mas a cana consegue rebrotar depois”, afirma.
Desde 2006, o pesquisador lidera um projeto de produção de cana-de-açúcar no Rio Grande do Sul, no qual desenvolve e estimula o plantio de variedades mais produtivas e adaptadas às condições de clima e solo do estado.
Entre os produtores que receberam mudas está o casal Mateus Ribeiro Camargo e Débora Severo, proprietários da Destilaria Alto da Cruz. Inicialmente, a cana entrou na propriedade para servir de alimentação para o gado leiteiro.
“Começamos a plantar cana em uma época em que o preço do milho subiu muito. Mas a nossa região tinha um histórico de mais de 100 anos de produção artesanal de cachaça, e resolvemos apostar na agroindústria”, relata Camargo.
O casal mantém um rebanho de 70 vacas, que produzem em torno de 40.000 litros de leite por mês. Hoje, no entanto, a propriedade tem no comércio das bebidas sua principal fonte de renda.
Com uma área de apenas 3,5 hectares dedicados à cultura, Mateus e Débora colhem cerca de 400 toneladas de cana e fabricam em torno de 4.000 litros de bebidas por ano. “Estamos em uma área de risco climático para a cana e, mesmo assim, atingimos ótimas produtividades”, comemora o produtor.
Em Restinga Seca, na região central do Rio Grande do Sul, a Agroindústria Puppe foi outro empreendimento que apostou nas cultivares que a Embrapa tem desenvolvido. “A gente usava umas variedades antigas de cana aqui da região, que cresciam bem, mas não faziam um bom melado”, conta a produtora Leci Puppe, que lidera as atividades da fábrica junto com o marido, Vitor Puppe.
Foi em 2017 que o casal recebeu da Embrapa uma das primeiras mudas. “Era uma variedade que dava bom resultado e produzia um melado de melhor qualidade, e ainda usamos até hoje”, relata a agricultora.
Os Puppe cultivam cana em 3,5 hectares e fabricam cerca de 6.000 quilos de melado e 1.000 quilos de açúcar mascavo por ano. O casal vende toda a produção em apenas uma feira de agricultores do município, uma renda que ajuda a complementar os ganhos da principal atividade da fazenda, que é a plantação de arroz.
“Não participamos de grandes eventos e, mesmo assim, temos uma boa clientela. Muita gente vem aqui para comprar nosso produto porque gosta da qualidade”, diz a produtora.
Apesar de sua importância para tantas famílias de pequenos produtores, as lavouras de cana vêm perdendo espaço nos campos gaúchos. De acordo com o IBGE, entre 2015 e 2024, a área de plantio da cultura caiu 40,5% no Rio Grande do Sul, passando de 19.508 para 11.605 hectares.
Grande parte dessa diminuição é consequência do avanço da soja, observa Sérgio Delmar dos Anjos, da Embrapa Clima Temperado. “Mas muitos produtores esquecem que, apesar de as cotações da soja serem interessantes, o custo de produção também é mais alto do que o da cana. Para quem tem uma agroindústria de melado, por exemplo, apenas um hectare de cana pode gerar uma renda de até R$ 20.000”, detalha.
Fonte :Globo Rural

