A revolução do etanol de milho e de outros grãos no Brasil
02-06-2026

 Foto: Globo Rural
Foto: Globo Rural

O modelo brasileiro é único: sustentado pela segunda safra, o setor abarca tecnologia, performance e sustentabilidade lado a lado

Por Fabrício Rocha

Nos últimos anos, o debate sobre energia mudou bastante. O que antes era visto como uma transição de longo prazo ganhou urgência, impulsionado por alguns fatores, como a emergência climática e pela necessidade de sistemas energéticos mais eficientes e resilientes.

Nesse cenário, o Brasil parte de uma posição diferente de muitos países, com uma matriz já diversificada e forte presença de fontes renováveis, como os biocombustíveis.

Essa base, aliada à capacidade de integrar agricultura à produção de energia, abre espaço para o avanço da bioenergia — com ganhos de eficiência, uso mais inteligente de recursos naturais e expansão de soluções como o etanol de milho e grãos.

Dentro deste ecossistema, o etanol surge com uma aceleração impressionante, e o Brasil, com sua capacidade de inovação e diversificação da matriz energética, está posicionado para ser o grande arquiteto deste futuro.

Há alguns anos, falar em etanol de milho e grãos no Brasil era falar de um setor embrionário. Hoje, nós testemunhamos uma transformação. O modelo brasileiro é único: sustentado pela "safrinha" (segunda safra), o setor abarca tecnologia, performance e sustentabilidade lado a lado.

Estimativas apontam que a produção desse biocombustível deve crescer cerca de 20% no ciclo 2025/26, consolidando uma participação que já supera 22% de todo o etanol produzido no país. E o que realmente move essa fronteira é a biotecnologia de ponta

Acreditamos que a eficiência industrial nasce da combinação entre ciência aplicada e soluções biotecnológicas capazes de ampliar o aproveitamento de matérias-primas e otimizar processos. A integração de enzimas, leveduras de alto desempenho e sistemas avançados de fermentação contribui para uma conversão mais eficiente, com ganhos em rendimento, redução no consumo de insumos e menor uso de energia. Esse avanço apoia a competitividade das usinas brasileiras em um cenário global cada vez mais exigente.

Além do combustível, a evolução tecnológica também transformou o modelo operacional das usinas. Tradicionalmente, a produção de etanol era focada quase exclusivamente na conversão do amido em açúcar para fermentação, enquanto os demais componentes do grão eram subaproveitados ou tratados como resíduos de menor valor.

Com o avanço da biotecnologia e do mercado de nutrição animal, surge o conceito de biorrefinaria integradora. Com sistemas mais eficientes de processamento, é possível quebrar de forma mais completa os componentes do grão, aumentando o aproveitamento da matéria-prima.

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O que antes era visto como subproduto passa a ser convertido em coprodutos de alto valor proteico para a nutrição animal, como os DDGS (Distillers Dried Grains with Solubles - Grãos Secos de Destilaria com Solúveis).

Este é um exemplo perfeito de economia circular na prática, e mostra o grande potencial que este setor tem em interligar cadeias de valor na produção agroindustrial. Estamos produzindo energia limpa e segurança alimentar simultaneamente, no mesmo hectare e de forma sustentável.

Olhando para frente, o potencial é ainda mais disruptivo. Com diretrizes como a “Lei do Combustível do Futuro”, o etanol de milho e grãos brasileiro se consolida como matéria-prima estratégica para apoiar o contínuo crescimento estratégico de penetração do etanol hidratado nos estados brasileiros, no SAF (Combustível Sustentável de Aviação) e no transporte marítimo de baixo carbono (1,5).

O futuro da bioenergia na América Latina é brilhante, mas exige compromisso contínuo com a tecnologia e políticas públicas de longo prazo. O Brasil já provou sua pujança no agronegócio transformando um setor importador de alimentos em um celeiro de segurança alimentar para o mundo em apenas três décadas; agora, estamos provando que somos líderes em biocombustiveis.

Ao unirmos nossa força produtiva, aproximando produtores da indústria, e este ecossistema conectado com formuladores de políticas públicas, exportaremos este modelo de sustentabilidade e posicionaremos o Brasil como líder global na agenda da transição energética com competitividade e ciência.

* Por Fabrício Rocha, diretor comercial de Bioenergia na Novonesis

As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural

Fonte: Globo Rural