Agro amplia uso de Fiagro e FIDC para financiar expansão
27-03-2026

Fundos ganham espaço diante de custo elevado do crédito rural

Andréia Vital

O agronegócio brasileiro tem intensificado o uso de instrumentos de mercado de capitais para financiar investimentos e capital de giro, em um movimento que reduz a dependência do crédito rural tradicional e de linhas bancárias. Estruturas como Fundos de Investimento em Direitos Creditórios e Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais avançam como alternativa para ampliar o acesso a recursos no setor.

Segundo o Martinelli Advogados, que atua na estruturação desses veículos, a estratégia reflete uma mudança estrutural na forma de captação. Para Lucas Moreira Gonçalves, sócio da área de mercado de capitais, o setor começa a reorganizar sua arquitetura financeira com base em instrumentos mais sofisticados.

"O agronegócio brasileiro sempre foi extremamente eficiente do ponto de vista produtivo. Agora, começamos a ver uma evolução na forma como o setor organiza seu financiamento. Estruturas como FIDCs e Fiagro estão ajudando a transformar recebíveis e fluxos de recursos da cadeia produtiva em plataformas estruturadas de capital", afirma.

Na prática, produtores, cooperativas, tradings e agroindústrias passam a estruturar seus recebíveis em fundos regulados, antecipando liquidez a partir de recursos de investidores institucionais. "Esses fundos antecipam liquidez para a cadeia produtiva enquanto investidores institucionais passam a financiar diretamente o setor", diz o especialista.

O avanço ocorre em um contexto de maior atenção ao custo de capital. Após um período de elevada liquidez global, empresas passaram a revisar não apenas as fontes de financiamento, mas também a forma como estruturam suas operações. Para Gonçalves, a mudança vai além da diversificação. "Quando uma cadeia produtiva passa a estruturar seu financiamento por meio de um fundo, ela está organizando uma plataforma de crédito própria, com governança e previsibilidade de fluxo", afirma.

O ambiente regulatório também contribuiu para esse movimento. A Resolução CVM nº 175 e a regulamentação do Fiagro pela Resolução nº 214 ampliaram a flexibilidade das estruturas e abriram espaço para veículos voltados ao financiamento das cadeias agroindustriais. Em alguns casos, estruturas de Fiagro operam com forte concentração em direitos creditórios, aproximando seu funcionamento ao dos FIDCs.

Outro vetor recente envolve a utilização de créditos acumulados de ICMS como parte dessas estruturas. Estados como Goiás e Paraná regulamentaram mecanismos que permitem integrar esses créditos à aquisição de cotas de fundos. Em Goiás, o Decreto nº 10.756 de 2025 autoriza a transferência vinculada a investimentos produtivos. No Paraná, o Decreto nº 9.951 de 2025 prevê o uso como contrapartida em FIDCs voltados ao agro.

"Historicamente, muitas empresas exportadoras acumulam créditos de ICMS com baixa liquidez. Algumas legislações estaduais começam a permitir que esses ativos sejam integrados a estruturas de financiamento produtivo, conectando política fiscal e mercado de capitais", afirma Gonçalves.

Na avaliação do especialista, a tendência deve ampliar o acesso ao capital e impulsionar a competitividade. "O próximo salto do agronegócio tende a vir da organização financeira das cadeias produtivas. Quem compreender essa dinâmica tende a acessar capital de forma mais