Ajustes de tratores e pneus definem eficiência operacional
24-03-2026
Especialista aponta perdas por má calibração e falta de uso da tecnologia
Andréia Vital
O uso inadequado de implementos agrícolas e a falta de ajustes finos nos tratores têm limitado o desempenho operacional no campo, mesmo com a evolução tecnológica dos equipamentos. A avaliação é de Douglas Rocha, da AGCO, que se apresentou no 27º Seminário de Mecanização e Produção de Cana-de-Açúcar do Grupo IDEA, realizado nos dias 18 e 19 de março, em Ribeirão Preto - SP.
Segundo o especialista, a eficiência na mecanização depende da integração entre ambiente, equipamentos, tratores e pessoas, e não apenas da tecnologia embarcada. “Tem tratores tão modernos que não conseguem entregar o melhor rendimento. Não é só tecnologia, é entender o campo, o operador e a máquina”, afirmou. Para ele, fatores como tipo de solo, umidade, declividade e escolha do implemento são determinantes para o desempenho, exigindo leitura operacional contínua e ajustes específicos para cada condição.
Rocha destacou que muitas usinas ainda operam com configurações padronizadas, mesmo diante de máquinas equipadas com sensores, telemetria e sistemas de monitoramento que permitem ajustes em tempo real. “Nós compramos um pneu radial e tratamos ele como diagonal. Não tiramos o máximo da tecnologia”, disse. Ele citou pressões de trabalho acima do recomendado, chegando a 30 ou 35 PSI, quando o correto, em muitos casos, estaria entre 15 e 20 PSI, conforme carga por eixo e especificações do fabricante.
Esse descompasso se agrava quando não há controle adequado do lastro, da distribuição de peso e da relação peso x potência, que deve ficar próxima de 50 a 54 kg por cavalo. O equilíbrio do conjunto exige cerca de 40% da carga no eixo dianteiro e 60% no traseiro, além de ajustes específicos de água nos pneus. “Quem trabalha com 15 PSI? Eu estou achando trator com 30. Está se perdendo tecnologia que já foi comprada”, afirmou. “Colocar 75% de água em tudo é erro. Cada situação exige ajuste específico”.
Na prática, o dimensionamento incorreto compromete eficiência energética e eleva custos. Em um exemplo apresentado, um conjunto com trator de 230 cavalos e dois transbordos de 10,5 m³ cada, totalizando cerca de 24 m³, pode atingir densidade média de 380 kg por metro cúbico de cana, parâmetro utilizado como referência operacional. A partir dessa base, decisões sobre pressão, peso e configuração impactam diretamente tração, patinagem e consumo de combustível.
O especialista também reforçou a necessidade de monitorar indicadores operacionais de forma integrada, como patinagem, carga do motor e avanço do eixo dianteiro, que deve ficar entre 1% e 5%. Os níveis ideais de patinagem variam de 5% a 18%, conforme o tipo de solo, e fora dessa faixa indicam perda de eficiência ou desperdício de energia. “Nunca trabalhar sem saber a carga do motor. Está em 70%? Qual é o torque disponível? Isso define eficiência”, disse.
Os impactos econômicos podem ser relevantes. Em um caso citado, a correção de ajustes reduziu o consumo de diesel de 9,44 para 8,78 litros por hora, gerando economia de 0,66 litro por hora. Em uma operação com 70 tratores, o ganho pode superar 162 mil litros de diesel ao longo da safra, apenas nessa frente operacional.
Para Rocha, o principal desafio está na gestão do conhecimento e na capacitação das equipes. “Não adianta ficar só na sala e mandar fazer. É preciso ir para o campo, entender o equipamento e a operação”, afirmou. Ele também alertou que erros na escolha do conjunto trator-implemento já comprometem a eficiência desde o início da operação.
O especialista defendeu maior uso das tabelas técnicas dos fabricantes, que indicam pressão ideal, capacidade de carga e configuração por tipo de pneu, além de maior familiaridade com tecnologias como pneus VF, IF e CFO, ainda pouco compreendidas no campo. “Está tudo disponível. As informações existem. O problema é que não usamos”, disse.
A recomendação é reavaliar periodicamente os equipamentos antes do início da safra, evitando a prática de retirar máquinas do pátio e colocá-las em operação sem ajustes. “Pegar o trator da safra passada e já ir para o campo não é o caminho”.
Confira:

