Alta Mogiana acelera a Agricultura 5.0 com integração total entre TI e campo
08-10-2025

Especialista da usina detalha como o uso de sistemas próprios e a integração com a John Deere impulsionam a eficiência e a automação das operações agrícolas

Por Andréia Vital

A transformação digital na agricultura deixou de ser tendência para se tornar um eixo estratégico de competitividade — e poucas usinas representam isso tão bem quanto a Alta Mogiana. No painel “Agricultura 5.0 na Colheita de Cana”, realizado durante o II Workshop de Tecnologia Canavieira, promovido pela Tracbel Agro em parceria com a John Deere, no último dia 2 de outubro, em Bebedouro - SP, o programador e desenvolvedor de integrações Joeder Blanca apresentou em detalhes o projeto de integração tecnológica que vem redefinindo a operação agrícola da companhia.

Blanca destacou que o avanço da usina se deve, sobretudo, à sinergia entre os setores de tecnologia e o campo. “Toda a área de tecnologia da Alta Mogiana - agrícola, industrial e de automação - está sob o mesmo departamento, comandado pelo nosso gerente Paulo. Isso faz com que o time de TI esteja diretamente conectado à área agrícola, o que torna o trabalho mais colaborativo, ágil e assertivo”, afirmou.

A Alta Mogiana, que neste mês celebra 42 anos de fundação, construiu sua trajetória com base em pilares éticos, sustentáveis e tecnológicos. “A tecnologia é um dos nossos maiores diferenciais. A inovação, porém, precisa ser prática. Não buscamos inovação pela inovação, mas soluções que tragam resultado efetivo para a operação”, disse o desenvolvedor.

Entre as principais frentes de atuação do time de tecnologia estão quatro eixos que sustentam a estrutura digital da empresa: ERP próprio, desenvolvido e mantido internamente; foco em inovação aplicada, voltada à eficiência operacional; integração de sistemas como base de desenvolvimento e equipe interna multidisciplinar, com profissionais de software, geotecnologia e automação.

O especialista explicou que a equipe atua com desenvolvimento interno de ponta a ponta, desde a modelagem dos dados até a integração com plataformas externas. “Em 2022, começamos a trabalhar com o John Deere Operations Center, e identificamos uma oportunidade de integração com nosso ERP. A ideia era permitir o envio remoto de planos de trabalho, prescrições e dados operacionais direto para os equipamentos no campo”, explicou.

Essa integração revolucionou a gestão das operações agrícolas. Antes, o acompanhamento era feito apenas após a conclusão das atividades. Agora, é possível monitorar em tempo real o desempenho, o uso de insumos e a execução das ordens de serviço. “O grande ganho é a capacidade de tomar decisões preventivas, não mais corretivas. A agricultura passa a ser guiada por dados, com respostas imediatas”, observou.

O projeto, no entanto, exigiu uma ampla padronização de dados e processos. Toda a base geográfica — que cobre cerca de 82 mil hectares — foi redesenhada com o uso de ferramentas GIS (usadas para coletar, armazenar, analisar e visualizar dados geográficos). Foram definidas nomenclaturas, códigos e limites padronizados, permitindo que os sistemas próprios e as APIs da John Deere “falassem a mesma língua”.

Nos primeiros meses, a operação começou com apenas quatro tratores e 20 operadores. Um ano depois, o número já havia saltado para 22 equipamentos conectados e mais de 100 usuários ativos. Atualmente, a usina conta com 205 tratores conectados, 56 operações integradas e mais de 400 colaboradores utilizando um sistema desenvolvido internamente. “Hoje, conseguimos enviar planos de trabalho remotamente para toda a frota. Cerca de 83% das transmissões já são feitas online, e nossa meta é chegar a 93% até 2026”, revelou.

Outro avanço expressivo foi a automação das ordens de serviço de manutenção. Por meio da integração, alertas de falhas mecânicas ou elétricas emitidos pelas máquinas geram automaticamente as ordens de serviço correspondentes. “Antes, o operador precisava avisar a oficina, que abria a ordem manualmente. Hoje, o sistema identifica o alerta, abre o chamado e o direciona para o mecânico responsável. É eficiência e agilidade na prática”, explicou.

A interface web desenvolvida pela Alta Mogiana - acessível em qualquer dispositivo - permite ao analista criar, consultar e gerenciar planos de trabalho e ordens de serviço em um ambiente integrado e responsivo. “Formalizamos o processo. Nenhum trabalho é executado sem uma ordem de serviço. Isso garante rastreabilidade e disciplina operacional”, destacou o desenvolvedor.

Para sustentar a adoção das novas tecnologias, a usina investiu fortemente em capacitação e multiplicação de conhecimento. Equipes de campo receberam treinamento detalhado e materiais informativos. Além disso, foram identificados “focos multiplicadores”, profissionais com maior afinidade tecnológica, responsáveis por disseminar o uso das ferramentas entre os colegas.

A aceitação, segundo Blanca, passou de ceticismo à dependência. “Quando começamos com o piloto automático, ninguém queria que a gente mexesse nas máquinas. Hoje, ninguém quer trabalhar sem. O mesmo aconteceu com o planejador de trabalho: antes havia resistência, agora somos cobrados quando o plano não está disponível”, brincou.

O ciclo operacional da usina hoje é totalmente digitalizado: o departamento agrícola planeja as atividades; a equipe de geotecnologia gera as linhas de plantio; o time de sistemas embarcados envia os planos aos equipamentos; e o centro de controle operacional (CCO) analisa o desempenho e devolve os dados para planejamento e relatórios.

Os números traduzem a escala da transformação: foram 483 planos de trabalho criados em 2022, 3.600 em 2023, 9.000 em 2024 e a expectativa é superar 10.000 planos em 2025. Cada plano representa uma operação realizada de forma remota, com monitoramento e análise de dados integrados.

O próximo passo, segundo Blanca, é a automação total do ciclo operacional. O projeto prevê sincronização automática dos cadastros de fazendas e talhões, geração de planos de trabalho assim que uma ordem de serviço é aberta, e encerramento automático da ordem ao final da execução. No futuro, a meta é que o sistema também baixe o consumo de produtos e estoques automaticamente.

Além disso, a usina pretende ampliar o monitoramento em tempo real de combustível, conectividade, sinal e disponibilidade das máquinas. Segundo ele, a meta é levar a automatização ao extremo, pois a tecnologia não é mais um suporte, é o coração da operação, que é o verdadeiro espírito da Agricultura 5.0 que já vivem dentro da Alta Mogiana.