Americana Summit planeja produzir SAF de etanol no Brasil
29-05-2026

JetBio produzirá combustível à base de etanol proveniente da segunda safra de milho — Foto: FAB/Divulgação
JetBio produzirá combustível à base de etanol proveniente da segunda safra de milho — Foto: FAB/Divulgação

Grupo prevê aporte de US$ 2 bilhões na JetBio, empresa que fabricará combustível sustentável de aviação a partir de 2030

Por Talita Moreira — Nova York

O Summit Agricultural Group, companhia americana de private equity voltada ao agronegócio, planeja construir uma planta de combustível sustentável para aviação (SAF) no Brasil. O projeto é estimado em cerca de US$ 2 bilhões, que devem ser captados de investidores nos Estados Unidos, disse ao ValorBruce Rastetter, fundador e presidente do conselho da empresa.

Batizada de JetBio, a companhia produzirá combustível à base de etanol proveniente da segunda safra de milho, área em que o Summit já atua no país, e também de cana-de-açúcar. A unidade ficará em Paulínia, no interior de São Paulo. A cidade foi escolhida por estar em um corredor industrial que conta com acesso a rodovias e ferrovias. A produção está prevista para começar em 2030.

A operação representa a estreia do Summit no mercado de SAF e pode se tornar a primeira iniciativa de produção em grande escala no mundo. No ano passado, os combustíveis sustentáveis representaram apenas 0,6% do consumo do setor de aviação e a expectativa é que cheguem a 0,8% neste ano. É pouco, mas as companhias aéreas terão de seguir obrigatoriamente parâmetros de descarbonização a partir de 2027, estabelecidos pela Organização da Aviação Civil Internacional (Icao, na sigla em inglês). Vem daí a aposta de que o segmento passará por uma expansão mais relevante.

“A oportunidade é usar a experiência que adquirimos investindo no Brasil para avançar ainda mais na cadeia de valor do etanol no país”, afirmou Rastetter. O empresário, pouco afeito a entrevistas, conversou com o Valor durante evento promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) neste mês em Nova York, onde foi homenageado como uma das lideranças que fortalecem a relação Brasil-EUA.

O empresário cresceu em uma fazenda no Estado americano de Iowa, mas é um velho conhecido do mercado brasileiro. O Summit fez seu primeiro negócio no país em 2011, quando investiu em um fundo de terras, que vendeu quase uma década mais tarde. Hoje, o grupo é acionista da FS, segunda maior produtora local de etanol de milho — criada em 2017, a companhia é controlada por uma joint venture entre o Summit e a Tapajós Participações e, neste mês, teve 40% de seu capital adquirido pela Amaggi. Os investimentos do grupo no país já somam quase R$ 10 bilhões, afirma o empresário.

De acordo com Rastetter, a JetBio é uma nova frente de investimentos do Summit e não tem relação direta com o veículo por meio do qual o grupo investe na FS. O aporte será feito por meio de outro fundo.

Mesmo assim, a FS terá um papel relevante no projeto porque deverá ser uma das fornecedoras do etanol a ser usado na produção. A companhia também tem outra característica que Rastetter considera essencial para o êxito da JetBio e que o levou a preferir o Brasil aos EUA como local para desenvolver o empreendimento: a baixa pegada de carbono quando comparado ao combustível produzido em outras regiões do mundo. Esse é um fator importante para que o modelo da nova companhia seja eficiente em termos de escala e custo, diz.

A FS deve dar um passo além nesse sentido nos próximos meses. A empresa prevê inaugurar em setembro uma unidade de captura e armazenamento de carbono em Lucas do Rio Verde (MT). De acordo com Rafael Abud, fundador e CEO da companhia, o projeto a tornará a primeira produtora de etanol de milho negativa em carbono no mundo. “Vamos ser o maior produtor global de combustível carbono negativo”, afirma.

A ideia é fazer a captura e o armazenamento do carbono (CCS, na sigla em inglês) gerado no processo de fermentação. Nesse processo, o dióxido de carbono é capturado, comprimido, liquefeito e posteriormente injetado no subsolo. A combinação de uso de biomassa, milho de segunda safra e sequestro de carbono levará, de acordo com a empresa, a um resultado negativo em emissões.

Segundo Rastetter, já existem conversas com empresas aéreas para vender o SAF da JetBio. “Quando você olha ao redor do mundo, todas as grandes companhias aéreas têm metas para combustível sustentável de aviação. Então, conversamos com várias delas e continuaremos fechando contratos de compra conforme avançarmos na construção da planta”, diz.

Rastetter também tem em vista o fornecimento de etanol de milho de segunda safra para o ainda nascente mercado marítimo de biocombustíveis. Nesse caso, os parâmetros de descarbonização ainda não foram definidos, mas estão em discussão e há uma demanda das empresas por soluções.

A unidade de captura e armazenamento de carbono da FS prevê um investimento de R$ 500 milhões. A empresa também está construindo sua quarta usina de etanol, em Campo Novo do Parecis (MT), a ser inaugurada no fim deste ano, um projeto de R$ 2 bilhões.

Fonte: Globo Rural