Após atingir patamar recorde em 2025, setor de biocombustíveis receberá R$ 107 bilhões em investimentos na próxima década
17-04-2026

Unidade da Inpasa de etanol de milho em Sidrolândia (MT) — Foto: Divulgação/Inpasa
Unidade da Inpasa de etanol de milho em Sidrolândia (MT) — Foto: Divulgação/Inpasa

Maior fatia dos novos investimentos será direcionada ao etanol, mas parcela considerável é prevista para tirar do papel tecnologias ainda pouco conhecidas de biorrefino

Por Fernanda Nunes*

O interesse em transformar insumos renováveis — como cana-de-açúcar, milho e soja — em combustíveis de baixa intensidade de carbono nunca foi tão expressivo no Brasil. No ano passado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou volume recorde de financiamento ao setor: R$ 6,4 bilhões. Em outra prova da expansão sem precedentes desse mercado, a produção de biodiesel também atingiu o pico em 2025, com 9,8 bilhões de litros, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). E o futuro é igualmente promissor, com R$ 106,7 bilhões de investimentos esperados ao longo da próxima década, conforme projeção da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

A maior fatia dos novos investimentos, R$ 66,2 bilhões, será direcionada ao tradicional carro-chefe dos biocombustíveis: o etanol. Mas uma parcela considerável, R$ 27,9 bilhões, vai ser usada para tirar do papel tecnologias ainda pouco conhecidas, de biorrefino, para produzir óleo diesel verde e querosene de aviação sustentável (o SAF). Há ainda projetos de biodiesel, que vão exigir mais R$ 9,5 bilhões, e de biometano (R$ 3 bilhões).

A grande ruptura, no entanto, virá da captura de carbono durante a produção dos biocombustíveis e do uso do CO₂ para produzir combustível sintético. Mas, por ora, há apenas R$ 100 milhões no radar para isso. Essa é uma aposta, de fato, para a década seguinte.

Os principais investimentos são consequência do aumento dos mandatos do etanol e do biodiesel e da criação de novos programas para os biocombustíveis avançados, como diesel verde e SAF, que estão em processo de regulamentação. Hoje, o mandato do etanol é de adição de 30% na gasolina, e o do biodiesel, de 15% no diesel.

— A EPE vê uma aceleração do crescimento do consumo de biocombustíveis. Primeiro porque há, de fato, políticas energéticas nesse sentido. Isso começou lá atrás, com o Acordo de Paris. Agora, quando o mundo passa a debater a segurança energética, a estratégia dos biocombustíveis é ainda mais reforçada — destaca Heloísa Borges, diretora de Estudos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis da EPE.

Borges relata que, devido à guerra no Irã e à elevação do preço dos derivados de petróleo, aumentou a procura pelo etanol no Brasil. Afinal, quanto mais cara fica a gasolina, mais o consumidor se interessa pelo álcool hidratado. Além disso, em linha com o que prevê a Lei do Combustível do Futuro, de 2024, a tendência é o governo aumentar o mandato dos biocombustíveis usados nos veículos para conter a inflação em tempos de crise.

O setor de transporte é o grande consumidor de biocombustíveis no Brasil. Do total de energia utilizada pela frota, 25,7% são renováveis. O dado é do Balanço Energético Nacional (BEN) 2025, o último divulgado, que tem como base o ano de 2024.

Fósseis ainda predominam

Essa área também é, na verdade, a que mais consome energia no país, respondendo por 33,2% do total. A maioria da energia do transporte, porém, continua vindo das fontes fósseis: óleo diesel (42,5%) e gasolina (26%). O etanol aparece em terceiro lugar, com 19,4% de participação, seguido do biodiesel (6,1%).

Consumidora de 1 bilhão de litros de diesel por ano em minas e ferrovias, a Vale vem focando no etanol e no biodiesel para descarbonizar sua frota:

— O maior desafio é o desenvolvimento tecnológico, pois as soluções ainda não estão prontas e exigem colaboração e testes rigorosos para garantir que a performance, a segurança e a confiabilidade dos equipamentos sejam mantidas — reforça João Turchetti, diretor de Engenharia de Descarbonização da mineradora.

Para ultrapassar essas barreiras, a Vale fechou parcerias com três fornecedores de equipamentos. Em 2024, assinou acordo com as empresas Caterpillar e Komatsu para desenvolver os primeiros caminhões fora de estrada do mundo movidos a uma mistura de etanol e diesel. No momento, o projeto está na fase de testes em laboratório. Já com a Wabtec, a ideia é desenvolver uma locomotiva movida pela mesma mistura de biocombustível com fóssil.

A empresa também iniciou testes, no ano passado, na mina de Fábrica Nova, em Mariana (MG), com um caminhão fora de estrada rodando com 30% de biodiesel misturado ao diesel, acima do limite estipulado pela lei. No futuro, a ideia é chegar a 50% de adição.

— Agora que alguns fabricantes estão oferecendo opções para a queima de etanol. Essa é uma decisão da indústria, que avalia no longo prazo. Em geral, ela espera a depreciação do parque para fazer essa escolha. Isso tende a acontecer por uma questão de economia e sustentabilidade — explica Heloísa Borges, da EPE.

Dinâmica territorial

Ticiana Alvares, diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), pontua que a dinâmica territorial de produção de biocombustíveis tem se transformado. Em 2017, a fabricação de etanol ocorria prioritariamente no Sudeste (58,2%), com destaque para São Paulo, responsável por 48,2% do total, enquanto o Centro-Oeste respondia por 31,4%.

Em 2025, porém, houve uma inflexão. O Centro-Oeste assumiu a ponta, com cerca de 48% da produção nacional, enquanto o Sudeste ficou com 41,3%. São Paulo ainda é o principal produtor individual, com 33,2%, mas é notório o avanço do Mato Grosso, o segundo maior, com 19,7%.

No caso do biodiesel, a estrutura regional se manteve estável. O Sul permanece na liderança (41%), seguido de perto pelo Centro-Oeste (39,4%).

— A base produtiva do setor continua ancorada em commodities agrícolas, majoritariamente vinculadas a monoculturas e a grandes propriedades. Esse arranjo limita a diversificação de matérias-primas e restringe a participação da agricultura familiar, que segue ocupando posição marginal na cadeia de valor dos biocombustíveis — diz Alvares.

De olho na lacuna do setor no Nordeste, a Gás Verde tem planos de instalar fábricas na região — na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão. Ao todo, a produtora de biometano vai inaugurar nove usinas em seis estados até 2029. A meta é expandir a produção média diária de 160 mil para 650 mil metros cúbicos.

— A Lei do Combustível do Futuro irá impulsionar ainda mais o setor ao estabelecer metas de aquisição de biometano por produtores e importadores de gás natural, iniciando já em 2026 com 0,5% do consumo. Diante desse cenário, a tendência é de expansão consistente do mercado nos próximos anos — prevê Marcel Jorand, CEO da Gás Verde.

*Especial para O GLOBO

Fonte: O Globo