Biológicos avançam e podem atingir 50% do mercado até 2050
12-05-2026
BioSummit reúne 1,2 mil pessoas e projeta expansão dos bioinsumos
O mercado de controle biológico no Brasil pode atingir 50% da proteção de cultivos até 2050, impulsionado pelo avanço da agricultura regenerativa, pela pressão por alimentos com menor impacto ambiental e pelo crescimento da demanda por soluções sustentáveis no campo. A projeção foi apresentada pelo pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Wagner Bettiol, durante a terceira edição do BioSummit, realizada no Expo Dom Pedro, na semana passada, em Campinas – SP.
Segundo Bettiol, o controle biológico alcançou participação de 12% no mercado brasileiro de proteção de cultivos em 2025, acima do patamar registrado cinco anos atrás, quando o crescimento anual girava em torno de 3%. A expectativa é de que o mercado mundial de pesticidas químicos avance 5% até 2030, enquanto o segmento biológico deverá crescer 15% no mesmo período.
De acordo com o pesquisador, o mercado global de proteção de cultivos deve movimentar US$ 106 bilhões até 2030, dos quais cerca de US$ 18 bilhões estarão ligados ao controle biológico, equivalente a aproximadamente 20% do total. “Há países em que o controle químico já começa a diminuir”, afirmou Bettiol durante a palestra “Controle biológico: sustentabilidade nos cenários de mudança climática”.
A jornalista especializada em agro Renata Maron afirmou durante o evento que o Brasil atingiu em 2025 cerca de 194 milhões de hectares potencialmente tratados com bioinsumos, volume quatro vezes superior à média global. Segundo ela, o índice de adoção dessas tecnologias passou de 22% para 47% em apenas cinco anos.
Entre os fatores que sustentam a expansão do setor, Bettiol citou a pressão dos consumidores por produtos mais “limpos”, dificuldades de registro de defensivos químicos, desenvolvimento de novas tecnologias biológicas e maior disseminação de conhecimento técnico no campo. Segundo ele, praticamente todos os grandes produtores brasileiros já utilizam controle biológico, enquanto médios e pequenos agricultores devem ampliar a adoção nos próximos dez anos.
Mudança climática e biodiversidade
Bettiol destacou ainda os ganhos ambientais associados aos bioinsumos e alertou para os impactos crescentes das mudanças climáticas sobre a agricultura. Segundo ele, o aumento da temperatura global tende a ampliar a incidência de doenças agrícolas causadas por vírus e molicutes transmitidos por vetores, uma vez que o aquecimento reduz o ciclo de vida desses organismos e eleva sua capacidade de disseminação de patógenos, como já observado em casos de enfezamento do milho.
O pesquisador afirmou ainda que a produção de um quilo de defensivo químico pode emitir entre 20 e 25 quilos de CO₂ equivalente, enquanto um quilo de bioinsumo gera entre 3 e 5 quilos de CO₂ equivalente.
Segundo Bettiol, o uso de agentes biológicos melhora a qualidade do solo, amplia a população microbiana, favorece o crescimento radicular e aumenta a retenção de carbono. O resultado, segundo ele, é uma planta menos suscetível a estresse, mais produtiva e com menor emissão de carbono por tonelada produzida.
O pesquisador também afirmou que o Brasil já registra 277 produtos biológicos desenvolvidos a partir de apenas duas cepas de microrganismos, o que, segundo ele, evidencia o potencial ainda pouco explorado da biodiversidade microbiana brasileira.
Durante o painel “Cana em Evidência”, o consultor Weber Valério, da AgroCiência, afirmou que o uso de biológicos na cultura da cana-de-açúcar cresceu 39% em 2025 frente a 2024, movimentando R$ 716 milhões. Segundo ele, o mercado ficou dividido entre 42% de bioinseticidas, 34% de biofungicidas e 24% de bionematicidas.
Microrganismos ganham espaço no campo
O professor Carlos Alexandre Cruciol, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirmou que os microrganismos utilizados em bioinsumos atuam além do controle de doenças, contribuindo para melhorar a nutrição das plantas, aumentar a eficiência no uso da água e reduzir efeitos de estresses abióticos. Segundo ele, pesquisas com produtos biológicos avançam em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar e citrus.
De acordo com Cruciol, bactérias do gênero Bacillus ajudam as plantas a enfrentar diferentes tipos de estresse abiótico, enquanto fungos do gênero Trichoderma apresentam maior eficiência em situações de déficit hídrico. O pesquisador destacou ainda a fixação biológica de nitrogênio em gramíneas como uma das áreas mais promissoras da agricultura, diante do potencial de reduzir a dependência global de fertilizantes nitrogenados.
Grandes grupos usam biológicos em 100% da área no plantio
Os grupos SLC Agrícola, Bom Futuro e Scheffer informaram durante o BioSummit que já utilizam bioinsumos em 100% das áreas de plantio de soja, milho e algodão.
Segundo Alexandre Pisoni, da SLC Agrícola, 17,7% do manejo de pragas e doenças da companhia já é realizado com biológicos, o equivalente a 5,33 milhões de hectares tratados. Na soja, algumas áreas chegam a 30% de adoção, enquanto no milho o índice está próximo de 25%. O algodão ainda apresenta menor participação devido à necessidade de aplicações de inseticidas.
No grupo Bom Futuro, os biológicos são utilizados em 100% das áreas no sulco de plantio e no tratamento de sementes. Segundo Cid Ricardo dos Reis, o desafio atual em grandes áreas envolve redução de defensivos, aplicação no momento correto e busca por equilíbrio entre sustentabilidade e viabilidade econômica.
Já o Grupo Scheffer informou utilizar bioinsumos em toda a área de plantio em Mato Grosso, com aplicação de cerca de 2 milhões de litros de produtos biológicos produzidos on farm.
Evento cresce 20% e reúne participantes de 11 países
O BioSummit 2026 reuniu cerca de 1,2 mil participantes, crescimento de 20% em relação à edição anterior. O evento contou com mais de 60 empresas patrocinadoras, representantes de todos os estados brasileiros e participantes de 11 países, além de aproximadamente 70 especialistas distribuídos em painéis e palestras técnicas.
A programação também incluiu a premiação BioSummit Reconhece, voltada a produtores rurais com atuação em agricultura regenerativa e sustentabilidade. Entre os homenageados estiveram Maira Coscrato Lelis da Silva, da Fazenda Santa Helena, em Guaíra – SP, e Armin Michael Scherer, do grupo ASKJ, com operações no Tocantins.
Fonte :Canaoeste

