Cana e milho avançam com integração e pressionam custos no etanol
22-04-2026

Ganho industrial do milho e estagnação da cana ampliam disputa

Andréia Vital

A competitividade do etanol de milho frente à cana-de-açúcar já se consolidou como vetor de expansão do setor no Brasil, com impacto direto sobre custos e decisões de investimento. A avaliação foi apresentada por Jaime Finguerut, diretor do ITC – Instituto de Tecnologia Canavieira, durante o painel “O Futuro da Cana – Da Produção ao Mercado”, no Cana Summit 2026, realizado nos dias 15 e 16 de abril, em Ribeirão Preto – SP.

Segundo Finguerut, o etanol de milho já opera com custo até 30% inferior, sustentado por ganhos industriais e pela ampla oferta de milho safrinha no Centro-Sul. O modelo permite aquisição da matéria-prima no mercado e captura de valor sobre excedentes agrícolas, além de garantir operação contínua ao longo do ano.

No desempenho industrial, o diferencial é relevante. A fermentação do milho atinge teores alcoólicos entre 18% e 20%, contra 7% a 11% na cana, reduzindo carga térmica, consumo hídrico e volume de efluentes. A operação sem entressafra melhora a diluição de custos fixos e o retorno sobre o capital investido.

No campo, o milho já alcança cerca de 90% do açúcar equivalente por hectare da cana, em ciclo de aproximadamente 120 dias. A expansão ocorre de forma acelerada, associada à segunda safra e à conversão de excedentes logísticos em etanol.

A cana-de-açúcar preserva atributos agronômicos relevantes, como metabolismo C4, elevada eficiência no uso de água e alta taxa de fixação de carbono. A cultura também concentra sacarose diretamente no colmo e apresenta janela de colheita superior a 200 dias, com potencial de adaptação a diferentes ambientes produtivos.

Apesar dessas características, a produtividade média permanece próxima de 80 toneladas por hectare, distante do potencial estimado de até 450 toneladas. A estagnação limita ganhos de escala e compromete a competitividade, especialmente considerando que a matéria-prima responde por cerca de 70% do custo do etanol.

A integração entre cana e milho passa a ser vetor de eficiência operacional. O modelo reduz a ociosidade do parque industrial, melhora a utilização de ativos e amplia a previsibilidade de receita, especialmente fora da safra da cana.

No caso do milho, a monetização simultânea de coprodutos reforça a rentabilidade. Já a cana busca capturar valor em rotas de maior densidade econômica, como materiais celulósicos e novas aplicações energéticas.

A disputa ocorre em um ambiente de ampliação da demanda potencial. O transporte marítimo consome cerca de 300 bilhões de litros de combustível por ano, enquanto a aviação demanda aproximadamente 250 bilhões. Em comparação, a produção brasileira de etanol gira em torno de 40 bilhões de litros.

Apesar do potencial, o custo ainda limita a expansão, sobretudo no combustível sustentável de aviação, cujo preço pode ser até cinco vezes superior ao querosene fóssil. Ao mesmo tempo, a eletrificação avança com redução relevante no custo das baterias e ganho de escala global.

Nesse cenário, a cana mantém relevância estrutural, mas perde protagonismo na expansão marginal do etanol. A competitividade passa a depender de ganhos consistentes de produtividade, maior eficiência industrial e integração com novas rotas de produção.