Com térmica 100% a etanol, Suape Energia defende inclusão da fonte no Redata e LRCAP
17-04-2026

UTE Suape II, da Suape Energia, é a maior termelétrica a óleo do Brasil. Foto: Divulgação
UTE Suape II, da Suape Energia, é a maior termelétrica a óleo do Brasil. Foto: Divulgação

CTO da Suape Energia, José Faustino, defende que poíticas públicas reconheçam os atributos ambientais e de segurança energética de térmicas a etanol

Gabriel Chiappini

A entrada em operação assistida da termelétrica Suape II, no Complexo Industrial de Suape (PE), movida integralmente a etanol, pressiona por espaço nos próximos leilões de reserva de capacidade e em política pública voltada a data centers.

Em parceria com a finlandesa Wärtsilä e operado pela Suape Energia —  controlada pela Savana Holding, com 80% de participação no capital social, e pela Petrobras,  com os 20% restantes —, o projeto pretende validar uma tecnologia inédita no mundo, com geração térmica com combustível 100% etanol. 

Com investimento de R$ 60 milhões e capacidade instalada de 4 MW nesta fase inicial, a expectativa é que, após os testes no segundo semestre do ano, o modelo possa ser escalado para uma planta de até 200 MW.

“Viemos tratando junto ao fabricante, às autoridades, e vendo como poderíamos  contribuir com essa transição energética, dado que a nossa potência é importante, e estamos conectados em um ponto também robusto da subestação” diz o CTO da Suape Energia, José Faustino, em entrevista a agência eixos

A companhia opera a UTE Guaçú com 50MW, funcionando com cavaco de madeira, no Mato Grosso, e, desde 2013, uma térmica a diesel, no Suape, com 381 MW, a UTE Suape II.

Além disso, garantiu o contrato de uma nova térmica a gás natural, com 119 MW, no Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026.

LRCAP sem etanol

Após cancelamento do trâmite em 2025, uma mudança no edital deixou o etanol de fora do último LRCAP, que incluiu a contratação de 92 usinas a gás natural, com potência de 15,2 GW, e outros 501 MW de usinas a óleo e biodiesel. 

Para Faustino, a exclusão do etanol do certame foi circunstancial e tende a ser revertida.

“Ganhamos agora com uma planta a gás. Ficou um pouco tumultuado, porque o governo queria evitar uma nova judicialização do leilão, então o etanol ficou para a segunda etapa. Nos próximos leilões ele vai ser contemplado”, acredita o executivo.

Segundo ele, a companhia optou por seguir com o investimento mesmo sem sinal regulatório imediato.

 “Mesmo assim a gente não quis deixar de investir no projeto”.

Contratação de térmicas com critérios ambientais

Além da inclusão de térmicas a etanol nos próximos leilões, a Suape Energia defende mudanças nos critérios de contratação, com a incorporação de atributos ambientais, hoje ausentes.

“[Na térmica a etanol] o combustível sempre é renovável. Por que não ter uma política que possa favorecer isso?”, pontua Faustino.

A discussão ganha relevância diante do aumento das emissões das térmicas fósseis. Entre 2024 e 2025, houve alta de 29% nas emissões de CO₂ dessas usinas no Brasil, segundo o  Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

Com o uso do etanol, a redução de emissões de gases do efeito estufa pode chegar a 90%, segundo a empresa.

Segurança energética e menor dependência externa

Outro eixo central da defesa do etanol é a segurança energética. Atualmente, o Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, ficando exposto à volatilidade internacional — agravada por conflitos geopolíticos recentes, como a Guerra no Irã.

“Eu não vou depender de combustível fóssil, não vou depender de guerras fora do meu país. Eu tenho realmente um combustível que vai garantir essa energia quando o sistema precisar”, diz Faustino.

Ele destaca ainda a flexibilidade logística do etanol brasileiro, com produção distribuída entre regiões e possibilidade de uso tanto de cana quanto de milho.

Outro atributo, segundo o executivo, é a velocidade de resposta ao sistema elétrico. 

Na prática, a capacidade de atingir carga plena é estimada em cerca de 30 minutos, o que significa mais flexibilidade frente às térmicas convencionais a diesel ou óleo combustível, que podem levar o dobro do tempo. 

Essa resposta mais rápida permite que a usina atue com maior eficiência como backup do sistema, reduzindo o tempo de acionamento em momentos críticos e aumentando a capacidade de acomodar fontes intermitentes, como solar e eólica.

Data centers no radar

A estratégia da empresa também mira o crescimento da demanda por energia firme e limpa, especialmente com a expansão de data centers no país. 

O governo federal tenta aprovar no Congresso Nacional o Redata, regime que condiciona incentivos fiscais ao uso de energia “renovável” e “limpa”, conceitos que ainda enfrentam debates sobre qual será sua definição e quais fontes serão elegíveis.

A Suape Energia já articula a inclusão do etanol como uma delas, tal como no LRCAP. Segundo ele, o interesse do mercado já é concreto.

“Já fomos contatados por duas grandes empresas da área de data centers (…) A ideia é que a gente também consiga fornecer essa solução de energia firme com combustível renovável”.

A empresa vê espaço tanto no mercado regulado quanto em contratos bilaterais (off-grid), oferecendo backup energético renovável para operações dos centros de dados que exigem fornecimento contínuo.

Tecnologia sob medida para o Brasil

A iniciativa nasceu de uma adaptação tecnológica em conjunto com a Wärtsilä, originalmente voltada a combustíveis como metanol e amônia. A proposta de utilizar etanol partiu dos próprios acionistas brasileiros.

O projeto, segundo Faustino, é inédito.

“Esse é o primeiro teste do mundo. Não aconteceu em nenhum outro país”. 

A expectativa é que o motor entre em operação ainda no segundo semestre, com testes voltados à viabilidade técnica e econômica.

Os primeiros resultados indicam eficiência térmica entre 43% e 44%, ligeiramente abaixo de motores a diesel ou óleo combustível, mas com compensação no custo do combustível e nos ganhos ambientais.

Além do etanol, a tecnologia permite operar também com biodiesel.

“Posso usar 100% biodiesel ou 100% etanol e posso fazer o mix também (…) Isso também se traduz em segurança”.

Fonte: Agência Eixos