Conversão de biomas para agropecuária retirou 1,4 bilhão de toneladas de carbono do solo
18-02-2026
Perda equivale a 5,2 bilhões de toneladas de CO2 equivalente
Por Andréia Vital
A conversão de áreas naturais em agricultura levou à perda de cerca de 1,4 bilhão de toneladas de carbono do solo no Brasil ao longo das últimas décadas, volume equivalente a 5,2 bilhões de toneladas de CO2 equivalente. A estimativa é de pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e da Embrapa Agricultura Digital, com divulgação pela Agência FAPESP.
O levantamento reúne dados compilados nos últimos 30 anos e integra estudo publicado na Nature Communications. O trabalho também contou com a participação da Universidade Estadual de Ponta Grossa e foi conduzido no âmbito do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical, sediado na Esalq e coordenado por Carlos Eduardo Pellegrino Cerri.
Segundo João Marcos Villela, primeiro autor do estudo e pesquisador da Esalq com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, o objetivo foi dimensionar a dívida de carbono associada ao uso agrícola do solo no País. Além da estimativa agregada, o grupo calculou o quanto cada bioma acumula e perde carbono quando áreas nativas são convertidas, assim como o impacto de diferentes práticas de manejo.
As estimativas se baseiam no maior banco de dados já organizado sobre carbono do solo no Brasil, com 4.290 registros extraídos de 372 estudos científicos publicados nas últimas três décadas. Foram avaliados todos os biomas brasileiros, tanto em vegetação nativa quanto em áreas agrícolas, em profundidades de até 100 centímetros.
Na vegetação natural, a Mata Atlântica apresentou os maiores estoques de carbono no solo, enquanto Caatinga e Pantanal registraram os menores valores. Na camada de 0 a 10 centímetros, os estoques da Mata Atlântica foram 86% superiores aos da Caatinga e 36% maiores que os do Cerrado. Em áreas agrícolas, o bioma também superou Pantanal e Caatinga em 154% e 62%, respectivamente.
A substituição de vegetação nativa por monocultura implica perdas relevantes. Na Mata Atlântica, a redução estimada chega a 33% do carbono do solo. No Cerrado, a queda é de 15,8%.
O estudo também avaliou o potencial de recomposição por meio de práticas conservacionistas. No Cerrado, a transição da monocultura para sistemas integrados pode elevar em 15,3% o carbono estocado. Na Amazônia, a adoção de rotação de culturas ou consórcios agrícolas pode gerar incremento potencial de 14,1%, ainda dependente de validação adicional.
A equipe calcula que a recarbonização de aproximadamente um terço da área agrícola brasileira poderia contribuir de forma significativa para o cumprimento da Contribuição Nacionalmente Determinada no âmbito do Acordo de Paris, que prevê redução de 59% a 67% das emissões até 2035 em relação a 2005. Técnicas como rotação de culturas, plantio direto, integração lavoura pecuária floresta e recuperação de pastagens degradadas são apontadas como alternativas com potencial de ampliar os estoques de carbono no solo.
Para converter o carbono estocado em equivalente de CO2, os pesquisadores utilizaram a métrica internacional que multiplica o carbono por 3,66, permitindo padronizar diferentes gases de efeito estufa em uma única unidade de comparação.

