“COP26 poderá abrir portas a iniciativas bilaterais de carbono”, diz Copersucar
03-11-2021

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Ainda há muitas dúvidas sobre se a COP26, que começa neste domingo em Glasgow, conseguirá chegar à regulamentação de um mercado global de carbono, mas existe grande expectativa de que a Conferência das Partes abra as portas para relações bilaterais ou multilaterais de crédito de carbono. “Isso é mais realista”, acredita Luis Roberto Pogetti, presidente do conselho de administração da Copersucar, líder mundial do segmento de etanol.

A viabilização de negociações bilaterais de créditos de carbono pode beneficiar sistemas de negociação que já existem em níveis nacionais e que hoje favorecem produtores de biocombustíveis.

No Brasil, o mercado já estabelecido é o RenovaBio, no qual produtores de biocombustíveis emitem créditos de acordo com a pegada de carbono de seu produto. Mas também há outros no exterior. Na Califórnia, por exemplo, o Low Carbon Fuel Standard (LCFS) permite que produtores de biocombustíveis com baixa pegada de carbono vendam seus créditos, e já é palco de atuação de muitos players brasileiros.

"Sementes organizada"
Para Pogetti, os Créditos de Descarbonização (CBios) poderiam ser inseridos em um mercado mais abrangente de carbono, e ainda serem usados como exemplo para a criação de outros mercados setoriais. “É uma semente bem organizada para ser copiada por outras atividades que tenham programas de sequestro de carbono”, defendeu.

Ainda que não haja um avanço substancial de regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris, que trata do mercado global de carbono, o dirigente defende que o etanol continuará sendo uma das alternativas na transição energética.

Sua tese é que o biocombustível — nascido nos anos 1970 mais como alternativa econômica do que ambiental à gasolina — pode não ser uma “bala de prata” para redução de emissões globais, mas fará parte de um portfólio de soluções para a descarbonização que dependerá do contexto de cada país. “O problema é gigantesco. O aquecimento é um problema global. Não tem um país, um produto sozinho ou uma iniciativa isolada que dê conta disso. Por isso, todo o esforço ou toda a contribuição é muito bem-vinda”, sustentou.

Indústria automobilística
Recentemente, a indústria do etanol voltou a conquistar a indústria automobilística atuante no Brasil e vem engajando o setor em iniciativas de promoção de veículos como o híbrido flex e de células de hidrogênio a partir do etanol.

Na semana passada, Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) e Sociedade de Engenharia Automotiva (SAE Brasil) lançaram o movimento Mobilidade Sustentável de Baixo Carbono (MSBC).

A iniciativa busca incentivar a cooperação tecnológica e o debate de estímulo ao uso de biocombustíveis e outras soluções de baixo carbono, incorporando inclusive formas de eletrificação de veículos, mas com uma visão mais abrangente a respeito de como calcular as emissões de carbono.

Na prática, a indústria automobilística brasileira abraça agora a tese da indústria do etanol de que o cálculo das emissões nos transportes deve ser feito através da metodologia “do poço à roda” — ou seja, desde a produção do combustível até seu consumo no escapamento —, e não apenas no veículo, o que privilegiaria os elétricos a bateria. Segundo Pogetti, o alinhamento com a indústria automobilística é “inédito”. “Encontramos poucas ocasiões no passado em que isso tenha ocorrido”, disse.

Na frente política, o segmento também apoiou a criação da Biocoalizão Parlamentar, formada por deputados e senadores de diversos partidos que pediram que o governo levasse à COP de Glasgow uma proposta oficial de um instrumento para calcular créditos de carbono associados ao estoque de biomassa à disposição da indústria, que apoiem o uso de biocombustíveis.

Pogetti minimiza o efeito da ausência do presidente Jair Bolsonaro na COP e acredita que o trabalho técnico dos ministros que estarão presentes deve ser o foco. Mas ele ressalta que o Brasil é o único país gabaritado para levantar essa discussão na COP. “Neste assunto, não consigo enxergar outro que pudesse se apresentar com protagonista.”

Fonte: Valor Econômico