Credores definem novo dono da Usina São Fernando
21-03-2022
Em assembleia nesta sexta, credores da massa falida vão decidir se aceitam uma das duas propostas de venda direta da unidade
Após quase cinco anos se arrastando em um processo de falência e há um ano sem moer um pé de cana sequer, a Usina São Fernando pode ter um novo dono definido nesta sexta-feira. Os credores da massa falida reúnem-se neste dia 18 em assembleia para decidir se aceitam uma das duas propostas de venda direta da unidade: a da Energética Santa Helena com a gestora Möbius Capital ou a da Pedra Agroindustrial.
Em ambos os casos, os credores encararam propostas que implicam em um corte de mais da metade da dívida da companhia, que passa de R$ 2 bilhões. Os principais credores são o BNDES e o Banco do Brasil, que financiaram em 2007 a construção da usina em Dourados (MS), de José Carlos Bumlai. A empresa passou a ter problemas poucos anos depois e parou de pagar os credores em 2013, quando entrou em recuperação judicial. Desde então, a usina já passou por várias tentativas de venda.
Nessa nova incursão, a Energética Santa Helena, de Nova Andradina (MS), e a Möbius propuseram pagar R$ 1bilhão aos credores, além de um compromisso de aproximadamente mais R$ 1 bilhão em investimentos nos próximos dez anos para retomar as operações. A oferta prevê um parcelamento por 30 anos, com parcelas anuais que começam em R$ 2 milhões e depois aumentam a partir do 11º ano.
Segundo Murilo Moura, sócio-fundador da Möbius Capital, os investidores desembolsariam entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões, divididos igualmente entre ambos, para os aportes iniciais. O restante do pagamento aos credores e dos investimentos seria feito com a geração de caixa esperada para quando a usina voltar a moer.
A reativação das operações é um desafio para a Usina São Fernando, mas pode representar um potencial de reativação da economia local se o plano tiver sucesso. É um desafio porque, como a usina já está parada há um ano, muitos produtores rurais da região que antes forneciam cana para a unidade migraram para o cultivo de grãos, que estão com rentabilidade alta.
Marcelo Coutinho, acionista e diretor financeiro da Santa Helena, admite que levará um tempo para reconquistar os fornecedores, mas conta com a experiência da própria Santa Helena na região para reaver o mercado. “Sabemos que vai ter dificuldade de arrendamento na disputa com soja. Mas sabemos de muitos contratos que, por causa da seca, estão sendo devolvidos por causa de arrendamentos que não foram pagos. Isso joga a nosso favor”, diz.
Porém, mesmo que a dupla de investidores ganhe a concorrência e assuma logo o negócio, a usina ainda não deve voltar a operar na safra que começa em abril (2022/23). O próximo ciclo seria reservado para iniciar o plantio e a contratação de funcionários.
A retomada deve ser lenta. Nos três primeiros anos, o plano é plantar 2 mil hectares ao ano em média - distante dos 50 mil hectares que a usina precisa para atender sua capacidade máxima de moagem, de 4,5 milhões de toneladas por safra. Moura diz que, em uma perspectiva conservadora, daria para moer 4 milhões de toneladas somente em dez anos, e gerar 3 mil empregos diretos mais 9 mil indiretos com a ocupação total da indústria.
Já a proposta da Pedra Agroindustrial, grupo com três usinas em São Paulo e sócia da Copersucar, não prevê a reativação da Usina São Fernando e também não atende uma exigência dos credores para a venda: a de que os bens da unidade permaneçam em garantia para a massa falida até a quitação do pagamento.
A companhia propôs pagar R$ 661 milhões, em 20 anos, para desmontar os equipamentos e máquinas da Usina São Fernando e levá-los a outras usinas. Para isso, a companhia quer que todos os bens que são objeto do edital da venda não tenham mais os ônus ou gravames associados atualmente.
Ao invés de manter as garantias atuais em prol da massa falida, a companhia propôs celebrar novos contratos de alienação fiduciária. A sucroalcooleira paulista também ofereceu uma fiança da HG Empreendimentos e Participações, holding dos mesmos acionistas da usina, e uma fiança de R$ 100 milhões, que seria válida até a transferência dos equipamentos a outras usinas. Procurada, a companhia preferiu não se pronunciar no momento.
Fonte: Valor Econômico

