Demanda em alta e novos mercados impulsionam etanol no Brasil
17-04-2026
Produção do biocombustível cresce sustentada pelo milho que já responde por 12 bilhões de litros dos 41 bilhões produzidos no país
Luciana Franco, da CNN Brasil, São Paulo
O mercado brasileiro de etanol vive um novo momento de expansão, impulsionado por aumento da demanda de clientes já tradicionais e novas oportunidades no cenário global. Especialistas do setor avaliam que, apesar dos desafios logísticos e de comunicação, que nem sempre é eficaz com o consumidor, o biocombustível tende a ganhar ainda mais relevância na matriz energética nos próximos anos.
Durante a 3ª Conferência Internacional Unem Datagro sobre etanol de milho, Plínio Nastari, presidente da Datagro, mostrou que consumo de combustíveis do ciclo Otto segue em trajetória de crescimento. Em 2025, a alta foi de 1,9 bilhão de litros de gasolina equivalente, enquanto para 2026 a expectativa é de avanço de pelo menos 1,6 bilhão de litros de gasolina equivalente, o que significa um acréscimo de 2,3 bilhões de litros em etanol hidratado. No horizonte de dez anos, o crescimento anual pode variar entre 2,5 e 3 bilhões de litros de hidratado, sinalizando um mercado robusto e em expansão.
Esse movimento já se reflete na maior participação do etanol na matriz de combustíveis leves. Em 2025, o Brasil substituiu 45,6% da gasolina por etanol, com destaque para estados como Mato Grosso (67,2%), São Paulo (58,9%) e Goiás (57,7%). Outros mercados relevantes, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, também apresentam índices expressivos. Já regiões como Bahia e Maranhão ainda têm participação mais baixa, próxima de 30%, mas com potencial de crescimento diante da instalação de novas unidades produtoras.
Produção crescente
No campo produtivo, o cenário mostra uma mudança importante no perfil do setor. A produção de açúcar se mantém praticamente estagnada nos últimos anos três anos em 43 milhões de toneladas, enquanto o etanol avança de forma significativa, com crescimento de 33% em cinco anos. O volume saltou de cerca de 31,3 bilhões de litros na safra 2022/23 para 41,6 bilhões de litros projetados em 2026/27. Um dos principais vetores desse crescimento é o etanol de milho, que já responde por mais de 12 bilhões de litros e tem compensado a estabilidade da produção a partir da cana-de-açúcar.
Além do mercado interno, novas frentes de demanda começam a ganhar força. Nastari destaca oportunidades relacionadas à ampliação do uso de etanol em outros países, aumento das misturas na gasolina em nível global e investimentos em infraestrutura logística, fundamentais para escoar a produção.
Na visão de Gustavo Mariano, vice-presidente de trading da Inpasa, maior produtora de etanol de grãos da América Latina, três pilares sustentam a expansão do setor no curto e médio prazo. O primeiro é o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. A elevação de 27% para 30% já representa um avanço relevante, mas há espaço para novos incrementos. Caso a mistura chegue a 32%, o impacto seria de cerca de 954 milhões de litros adicionais de demanda ainda este ano. Em um cenário de 35%, esse volume pode ultrapassar 2,3 bilhões de litros.
O segundo pilar é a expansão da distribuição, especialmente em regiões com menor penetração do biocombustível. No Nordeste, por exemplo, o consumo de anidro se situou em 1,65 bilhão de litros in 2025, "mas um aumento da participação do etanol para 30% poderia gerar uma demanda adicional de 3,75 bilhões de litros" diz Mariano.
Já o terceiro vetor é o mercado marítimo, que começa a despontar como uma nova fronteira. "Mesmo antes da regulamentação do mercado, já há encomendas de navios com capacidade para utilizar etanol como combustível, e as projeções indicam que esse segmento pode gerar uma demanda adicional de até 32 bilhões de litros até 2040", revela do executivo da Inpasa.
Apesar das perspectivas positivas, o setor ainda enfrenta desafios importantes. Um deles é a falta de informação do consumidor. Segundo Mariano, cerca de 60% dos proprietários de veículos flex não sabem que podem utilizar etanol de forma vantajosa, o que limita o consumo do hidratado. Outro ponto crítico é a logística: levar o combustível das regiões produtoras até os grandes centros consumidores ainda exige investimentos em infraestrutura e distribuição.
Por outro lado, políticas como o RenovaBio e iniciativas ligadas ao mercado de carbono, especialmente no contexto do etanol de milho e do carbono no solo, surgem como oportunidades adicionais para fortalecer a competitividade do biocombustível brasileiro.
Fonte: CNN

