El Niño desafia produção agrícola e exige planejamento de Engenharia no campo
21-07-2026

Calor e chuvas irregulares ameaçam o campo; especialista do Crea-SP alerta para quebra na safra paulista e reforça a necessidade de programação

O avanço do fenômeno climático El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, acende um alerta para o agronegócio brasileiro ao alterar o regime de chuvas e as temperaturas em todo o país. Para garantir a sustentabilidade e enfrentar esse cenário de extremos em todas as frentes do campo, a aplicação prática da Agronomia e da tecnologia surge como uma resposta indispensável e propositiva. O uso de ferramentas modernas permite que o setor produtivo se antecipe às adversidades climáticas, diminuindo perdas severas na produtividade e assegurando a qualidade dos alimentos que chegam à mesa do consumidor.

Essa blindagem tecnológica é fundamental para responder de forma ágil aos extremos climáticos que se dividem pelo território nacional. Enquanto o estado de São Paulo e o Centro-Sul do país operam sob a ameaça de ondas de calor extremo e estiagens intermitentes, a Região Sul enfrenta o desafio oposto, com tempestades volumosas na fase de colheita do trigo e do milho. Nesses solos encharcados, a impossibilidade de entrada das máquinas eleva os riscos de o grão germinar na palha ou apodrecer em campo. É justamente para equilibrar essa balança de excessos e escassezes que a Engenharia Agronômica atua, permitindo desde a aplicação de irrigação inteligente nas áreas secas até o desenvolvimento de projetos eficientes de drenagem para evitar a erosão e a perda de qualidade industrial dos alimentos.

A quebra da regularidade climática desorganiza diretamente o calendário agrícola, gera um efeito cascata no ciclo de desenvolvimento das grandes mercadorias e afeta o planejamento econômico das propriedades. "O calendário agrícola pode ser alterado porque a irregularidade de chuvas provocada pelo El Niño desorganiza o planejamento que é feito nas áreas produtoras. Um bom exemplo é na plantação de soja, se for plantada tardiamente, ela amadurece em condições climáticas menos favoráveis, sofre com o calor excessivo e como consequência tem menor rendimento na safra", afirma o engenheiro agrônomo Glauco Eduardo Pereira Cortez, diretor de Relações Profissionais do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP).

Além dos grãos, o cinturão de culturas perenes de São Paulo, composto expressivamente pela citricultura, que é o cultivo ou plantação de frutas cítricas, tais como laranjas, limões, tangerinas e cafeicultura, enfrenta forte pressão fisiológica devido às anomalias térmicas. O calor extremo na primavera prejudica diretamente a transformação das flores em frutos. Já na produção de café, o calor forte e as chuvas irregulares fazem as plantas florescerem fora de hora e de forma desigual. O resultado é que os frutos amadurecem em ritmos diferentes, gerando grãos de pior qualidade e deixando a lavoura mais exposta ao ataque de pragas.

"O grande volume de calor pode prejudicar tanto os animais quanto as plantas, e nas culturas perenes o risco é vermos as flores caírem antes de virarem frutos. No caso da citricultura paulista, as temperaturas extremas na fase de pós-florada fazem com que a planta aborte a produção como um mecanismo de sobrevivência ao estresse hídrico, fazendo com que haja uma quantidade menor de laranjas colhidas e prejudica a qualidade final, gerando frutos menores, com casca mais grossa e menor rendimento de suco para a indústria", complementa Glauco.

A mesa do consumidor sente o reflexo do El Niño de forma ainda mais rápida com as hortaliças. O ambiente abafado e excessivamente úmido acelera o ciclo biológico de fitopatógenos, provocando surtos de doenças fúngicas como a mela no alface e a ferrugem em plantios de tomate e batata, exigindo manejo preventivo rigoroso para evitar a perda total da produção. No caso do tomate, o calor excessivo impede o desenvolvimento adequado, pois o fruto atinge o tamanho normal externamente, mas o enchimento interno fica comprometido, resultando em um produto oco e leve que perde peso na balança e força a alta dos preços nas feiras.

O setor pecuário leiteiro de São Paulo também pode ser afetado durante a vigência do fenômeno, enfrentando quedas expressivas na produtividade causadas pelo desconforto térmico dos animais. O calor exagerado provoca estresse térmico severo no rebanho, o que reduz drasticamente o apetite das vacas, diminui a ingestão de matéria seca e altera o comportamento de consumo diário de água. "As vacas sob estresse térmico produzem menos leite. Esse quadro gera uma redução imediata na produção de leite, que pode variar entre 10% e 30%, além de comprometer os teores de gordura e proteína. Paralelamente, as pastagens sofrem com a estiagem, obrigando o produtor a investir em suplementação com alimentos concentrados para manter o escore corporal do gado, o que eleva o custo operacional da atividade", detalha.

No pós-colheita, o suporte tecnológico é igualmente vital para impedir que a umidade deteriore a produção armazenada, especialmente em safras colhidas sob condições adversas de chuva, como ocorre frequentemente com o trigo no Sul do país. O uso de secadores industriais integrados a silos modernos com controle automatizado de temperatura e umidade garante a conservação e a qualidade dos grãos, evitando perdas financeiras após o esforço despendido em campo. Além disso, o planejamento do produtor deve incluir o uso de cultivares geneticamente mais tolerantes ao estresse térmico e à seca, aliadas à adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP), que utiliza sistemas de alerta e monitoramento constante para identificar a proliferação de insetos e fungos.

Para o enfrentamento das instabilidades decorrentes do El Niño, a gestão preventiva de dados climáticos se consolida como diretriz indispensável no campo. Glauco reforça a importância desse monitoramento contínuo para a estruturação de planos de contingência robustos e para a antecipação na aquisição de insumos. “O produtor precisa trabalhar com cenários, tendo os planos A, B e C desenhados para agir de acordo com o comportamento do clima, seja ele de normalidade, seca ou chuva excessiva”, conclui o diretor do Crea-SP.