El Niño eleva risco de queimadas e pressiona setor elétrico
01-06-2026

Calor e seca podem afetar redes de energia em 2026

Andréia Vital

As condições climáticas previstas para os próximos meses acendem um alerta para o setor elétrico brasileiro. Com probabilidade superior a 80% de instalação entre maio e julho, o fenômeno El Niño pode intensificar períodos de calor e estiagem em parte do País, favorecendo a ocorrência de queimadas e ampliando os riscos para a infraestrutura de transmissão e distribuição de energia.

A avaliação é da Climatempo, consultoria especializada em meteorologia. De acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), os modelos climáticos indicam potencial para o desenvolvimento do fenômeno ao longo da primavera, com reflexos sobre diferentes regiões brasileiras.

Segundo os meteorologistas, o El Niño tende a provocar condições mais secas e quentes no Centro-Oeste, Sudeste, interior do Nordeste e parte da Região Norte. Ao mesmo tempo, pode aumentar a ocorrência de chuvas intensas na Região Sul. Esse padrão climático favorece a redução da umidade relativa do ar e o prolongamento dos períodos sem precipitação, fatores que contribuem para a propagação de incêndios.

Os impactos preocupam especialmente as áreas onde estão concentradas linhas de transmissão, subestações e redes de distribuição. A combinação entre vegetação ressecada, temperaturas elevadas e ventos mais intensos cria um ambiente propício para a ocorrência de focos de fogo próximos a ativos estratégicos do sistema elétrico.

O histórico recente reforça a atenção das empresas do setor. Segundo Vitor Hassan, Head de Negócios da Climatempo, o ciclo do El Niño de 2023/2024 trouxe desafios operacionais relevantes para o mercado de energia, com aumento do consumo elétrico, maior utilização de usinas termelétricas e crescimento das ocorrências relacionadas a incêndios.

As queimadas registradas naquele período contribuíram para o aumento de desligamentos automáticos em diferentes regiões do País, afetando a confiabilidade do sistema. Além dos danos diretos à infraestrutura, o fogo pode provocar curtos-circuitos e interrupções no fornecimento de energia quando ocorre nas proximidades das redes elétricas.

Para 2026, a preocupação está menos associada a eventos isolados e mais à combinação simultânea de fatores críticos. Baixa umidade do ar, ondas de calor, estiagens prolongadas e ventos podem ampliar a vulnerabilidade do sistema em momentos de maior demanda por energia.

Outro desafio é o aumento do consumo durante períodos de temperaturas elevadas. A utilização mais intensa de equipamentos de climatização gera picos de carga justamente em um cenário de maior exposição a falhas operacionais, elevando a necessidade de monitoramento e resposta rápida por parte das concessionárias.

Diante desse cenário, empresas do setor têm ampliado o uso de ferramentas de inteligência climática para antecipar riscos e apoiar decisões operacionais. Entre as soluções utilizadas está o CT Merge Fire, sistema desenvolvido pela Climatempo para monitoramento de queimadas por meio da integração de diferentes bases de dados de satélites.

A tecnologia reúne informações de múltiplos sensores, ampliando a capacidade de detecção de focos de calor e reduzindo limitações comuns dos sistemas convencionais, como falhas de cobertura ou interferências causadas por nuvens.

Segundo Hassan, o acompanhamento climático passou a ter papel cada vez mais estratégico na gestão dos ativos de energia. “Empresas mais preparadas deixaram de apenas acompanhar previsões tradicionais e passaram a incorporar inteligência climática diretamente às suas operações”, afirma.