Excedente global mantém açúcar pressionado mesmo com riscos climáticos
01-06-2026
Produção brasileira robusta limita reação dos preços no mercado
Andréia Vital
O mercado internacional de açúcar segue enfrentando um cenário de ampla oferta, apesar das incertezas provocadas pelos conflitos geopolíticos e pelas perspectivas de formação de um novo El Niño. A avaliação foi apresentada pela coordenadora de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets, Lívea Coda, durante uma Call de Mercado realizada na quarta-feira (27), na qual a consultoria analisou os impactos da geopolítica, do clima, das políticas para combustíveis e das projeções para os principais produtores mundiais.
Segundo a especialista, a escalada das tensões internacionais elevou o prêmio de risco dos mercados globais, movimento que já vinha sendo observado desde a imposição de tarifas comerciais pelos Estados Unidos. O cenário ganhou intensidade com o conflito envolvendo Estados Unidos e Irã, favorecendo ativos considerados portos seguros, como o ouro, e ampliando a volatilidade dos mercados financeiros.
"O prêmio de risco voltou a subir. Ele já vinha aumentando desde a imposição das tarifas dos Estados Unidos e ganhou força com a guerra entre Irã e Estados Unidos", afirmou. De acordo com a consultoria, os maiores impactos da guerra concentram-se no setor energético. Além dos riscos diretos sobre a produção de petróleo e gás natural, o mercado acompanha os desdobramentos no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais para transporte de energia.
O aumento dos preços do petróleo afeta toda a cadeia logística mundial. Os custos de frete marítimo vêm registrando alta, enquanto fertilizantes nitrogenados também podem sofrer pressão adicional. Segundo Lívea, o efeito acaba sendo disseminado para diversos setores da economia. "Quando você tem um impacto no petróleo, isso repercute em toda a cadeia de suprimentos. O transporte marítimo depende desses combustíveis e isso acaba elevando os custos de frete em todo o complexo logístico", disse.
A consultoria avalia ainda que a continuidade das tensões geopolíticas pode ampliar as pressões inflacionárias globais, dificultando cortes de juros em importantes economias e elevando os custos de produção agrícola ao longo dos próximos ciclos.
Centro-Sul caminha para o quarto ano acima de 600 milhões de toneladas
Apesar dos riscos externos, os fundamentos do mercado continuam sendo determinados principalmente pela oferta brasileira. A projeção da empresa aponta moagem de 635 milhões de toneladas de cana-de-açúcar no Centro-Sul na safra 2026/27, ante 611,2 milhões de toneladas no ciclo 2025/26. Caso a estimativa se confirme, será o quarto ano consecutivo com produção superior a 600 milhões de toneladas.
Além do aumento da moagem, a expectativa é de melhora na qualidade da matéria-prima. O ATR médio deverá subir de 137,8 quilos para 139,2 quilos por tonelada de cana, reforçando o potencial produtivo das usinas. As condições climáticas observadas até o momento também favorecem o desenvolvimento da cultura, com chuvas próximas da média histórica e bons índices de saúde da vegetação.
Segundo a especialista, embora o mercado acompanhe atentamente o comportamento climático na Índia e na Tailândia, eventuais problemas no Brasil poderiam ter efeito ainda mais relevante sobre os preços. "Se a gente tiver um contexto de seca, ou até mais provavelmente inundações, ou incêndios, isso pode ter um impacto maior no preço do que começar a especular sobre quebras na Índia e na Tailândia", afirmou.
Com os preços internacionais do açúcar pressionados e o etanol recuperando competitividade, a consultoria projeta uma redução do mix açucareiro no Centro-Sul. A participação destinada ao açúcar deve cair de 50,4% para 47,5% da cana processada na safra 2026/27.
Mesmo com a redução do mix, a produção de açúcar deverá permanecer elevada, passando de 40,4 milhões para 39,9 milhões de toneladas. No segmento de biocombustíveis, a expectativa é de crescimento da produção de etanol anidro de 12,9 bilhões para 15 bilhões de litros e do hidratado de 20,8 bilhões para 23,5 bilhões de litros.
A expansão do etanol de milho também chama atenção. A produção de anidro oriundo do cereal deve avançar de 3,6 bilhões para 4 bilhões de litros, enquanto o hidratado pode crescer de 5,6 bilhões para 7,1 bilhões de litros. Somados, os volumes representam aumento próximo de 20% na oferta do biocombustível produzido a partir do milho.
Segundo Lívea, estimular o consumo de etanol continua sendo a forma mais eficiente de reduzir a pressão provocada pelo excedente global de açúcar. "A maneira mais econômica que a gente tem de absorver o excedente é criando demanda doméstica por etanol", afirmou.
E32 pode reforçar demanda por anidro
Nesse contexto, o mercado acompanha a possível adoção do E32, política que elevaria de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. Os estudos apresentados pela consultoria indicam que a medida poderia ser absorvida sem necessidade de alterar significativamente a produção de açúcar. O ajuste ocorreria por meio da redistribuição dos volumes de etanol, elevando a participação do anidro de cerca de 39% para 41,1% da produção total.
Segundo os cálculos da empresa, o E32 ajudaria a reduzir os estoques de anidro e dar sustentação aos preços do biocombustível. Ainda assim, a medida não seria suficiente para eliminar totalmente o excedente de açúcar existente no mercado internacional.
Entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2027, a consultoria estima um excedente comercial de aproximadamente 3,1 milhões de toneladas. Em um cenário de El Niño mais intenso, esse volume poderia cair para cerca de 1,7 milhão de toneladas, mas ainda permaneceria positivo.
Índia continua sendo o principal risco climático
No Hemisfério Norte, a Índia segue como principal fonte de preocupação para os participantes do mercado. A produção do país, que atingiu 36,01 milhões de toneladas em 2021/22, é estimada em 28,78 milhões de toneladas para 2026/27. As exportações continuam limitadas a cerca de 800 mil toneladas, reflexo da menor disponibilidade de cana e das condições climáticas menos favoráveis.
A atenção está voltada para a temporada de monções, que deverá alcançar apenas 92% da média histórica entre junho e setembro, segundo projeções meteorológicas. A formação do El Niño pode enfraquecer ainda mais as chuvas e comprometer o potencial de recuperação da produção. "O El Niño pode limitar ainda mais a recuperação da Índia. É o principal risco para a oferta global neste momento", afirmou Lívea.
Apesar das preocupações, a coordenadora destacou que o início das monções vem ocorrendo dentro do cronograma esperado, reduzindo parte da apreensão observada no início do ano.
Tailândia, México e América Central compensam parte dos riscos
Enquanto a Índia enfrenta desafios climáticos, outros produtores apresentam sinais de recuperação. Na Tailândia, a produção deverá alcançar cerca de 11 milhões de toneladas em 2026/27, após atingir 12 milhões de toneladas na temporada anterior. O aumento da produtividade e o melhor desenvolvimento da cana ajudam a reduzir os riscos de aperto na oferta global.
O México também apresentou melhora nos indicadores da safra. A produção foi revisada para 4,963 milhões de toneladas em 2025/26, aumento de aproximadamente 333 mil toneladas em relação ao ciclo anterior. A produtividade média subiu de 63,31 para 69,81 toneladas por hectare.
Na América Central, Guatemala e Nicarágua registram recuperação da produção após condições climáticas favoráveis. A Guatemala apresentou crescimento de cerca de 1,5%, enquanto os sistemas de irrigação podem ajudar a mitigar parte dos efeitos do El Niño nas próximas temporadas.
Gasolina pode alterar o piso do açúcar
Outro fator monitorado pelo mercado é a política de preços dos combustíveis no Brasil. Segundo os cálculos apresentados pela consultoria, caso houvesse repasse integral da arbitragem de importação da gasolina pela Petrobras, o piso teórico do açúcar poderia subir dos atuais 14,2 centavos de dólar por libra-peso para cerca de 18 centavos.
Lívea destacou, porém, que os movimentos recentes observados nos postos de combustíveis ocorreram mais por decisões comerciais de distribuidoras e revendedores do que por repasses diretos dos preços internacionais.
"Hoje a gente não tem a Petrobras repassando esse custo diretamente. O aumento do preço não teve um efeito direto no mercado doméstico. Houve um repasse feito pelos postos e distribuidoras, e não necessariamente uma transmissão integral do mercado internacional", explicou.
Do lado do consumo, a consultoria avalia que os fundamentos permanecem positivos. O crescimento da população e da renda em países emergentes da Ásia e da África continua sustentando a expansão da demanda global por açúcar.
A análise também revisou estudos relacionados aos impostos sobre bebidas adoçadas e ao uso de medicamentos para perda de peso, como os tratamentos à base de GLP-1 e GIP. Segundo a especialista, ainda não existem evidências robustas de que esses fatores estejam provocando redução significativa do consumo global.
"Hoje a demanda continua crescendo estruturalmente. Podemos falar em algo próximo de 1% ao ano, até um pouco mais, dependendo do resultado desses países da Ásia e da África", afirmou.

