Expansão do etanol de milho no Brasil altera a dinâmica do setor sucroenergético
26-01-2026
Oferta avança mais rápido que a demanda e pode influenciar preços e decisões de mix das usinas
Por Andréia Vital
A rápida expansão da produção de etanol de milho no Brasil começa a alterar o equilíbrio do setor sucroenergético e amplia a atenção de agentes do mercado. O crescimento acelerado da capacidade instalada ocorre em um momento em que o consumo doméstico tende a avançar de forma mais gradual no curto e médio prazo, criando o risco de pressão sobre os preços do biocombustível e reflexos indiretos sobre o mercado de açúcar.
O alerta consta de relatório assinado por Andy Duff, Regional Head of RaboResearch Food and Agribusiness para a América do Sul, no qual o executivo avalia que o etanol de milho deixou de ocupar um papel complementar e passou a ter peso relevante na matriz brasileira de combustíveis renováveis. Na safra 2025/26, a produção já se aproxima de 10 bilhões de litros, apoiada em um modelo industrial considerado competitivo, com plantas de grande escala, operação contínua e geração de receitas adicionais com coprodutos.
Segundo o estudo, projetos já autorizados e investimentos anunciados por grupos consolidados podem elevar a capacidade operacional de etanol a partir de milho e outros cereais para até 16 bilhões de litros anuais até 2028. Projeções de mercado indicam volumes ainda maiores no início da próxima década, caso o ritmo de investimentos seja mantido.
Para Duff, esse avanço ocorre em um momento sensível do ciclo do setor. “Com os preços do açúcar já distantes dos picos recentes e a capacidade de etanol de milho avançando de forma contínua, o cenário de curto e médio prazo aponta para desafios relevantes”, afirma o executivo no relatório.
Um eventual excesso de etanol no mercado doméstico pode pressionar os preços do biocombustível. Nesse contexto, as usinas com flexibilidade industrial tendem a reavaliar o mix produtivo, ampliando a destinação de cana para açúcar sempre que as margens relativas se mostrarem mais favoráveis.
“O risco é que um excedente de etanol leve os preços do biocombustível para baixo e estimule uma maior produção de açúcar, levando os dois mercados à paridade”, observa Duff. Segundo ele, a expectativa de uma safra de cana volumosa no Brasil em 2026/27 já contribui para esse ambiente de cautela nos mercados internacionais.
O relatório aponta possíveis vetores de crescimento do consumo de etanol, como novos aumentos na mistura obrigatória à gasolina, mudanças tributárias previstas para os próximos anos e o uso do biocombustível como insumo para combustíveis sustentáveis nos setores de aviação e transporte marítimo. No entanto, a maior parte dessas iniciativas tende a ganhar escala apenas a partir do fim da década.
“Embora existam diversos caminhos para um aumento relevante da demanda no longo prazo, o desafio será fazer com que esse crescimento acompanhe a velocidade de expansão da oferta nos próximos anos”, destaca Duff. Segundo o relatório, até que essas frentes avancem de forma mais consistente, alterações no mercado brasileiro de etanol devem continuar influenciando as decisões estratégicas de usinas, produtores e agentes do mercado de açúcar.

