Impacto de tarifas dos EUA deve ser limitado para usinas
03-06-2026

Setor sucroalcooleiro teme que o Brasil flexibilize sua política comercial e isente ou reduza a tarifa de importação do etanol americano — Foto: Paulo Fridman/Getty Images
Setor sucroalcooleiro teme que o Brasil flexibilize sua política comercial e isente ou reduza a tarifa de importação do etanol americano — Foto: Paulo Fridman/Getty Images

Governo americano não deve poupar açúcar, etanol, café solúvel, tilápia e uva do Brasil de eventual tarifa adicional de 25%

Por Camila Souza Ramos, Raphael Salomão e Eliane Silva — São Paulo e Ribeirão Preto (SP)

A proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros não poupou o açúcar e o etanol, mas eventuais impactos tendem a ser limitados para as usinas sucroalcooleiras. Ontem, o governo americano anunciou a proposta no âmbito das investigações da seção 301 da lei de Comércio.

Na visão de analistas e executivos do segmento sucroalcooleiro, o receio é que o Brasil flexibilize sua política comercial e isente ou reduza a tarifa de importação do etanol americano, hoje em 18%, o que aumentaria o excedente de oferta local.

Com uma tarifa adicional de 25%, as usinas do Nordeste e do Norte que hoje usufruem da cota americana de importação de açúcar isenta de tarifa perdem competitividade em relação a outros países que também a utilizam.

Mas, para Mario Lorencatto, presidente da Usina Coruripe, empresa que possui uma unidade em Alagoas e é a principal empresa exportadora de açúcar aos EUA, uma nova tarifa não altera a programação da próxima safra.

“Vamos continuar vendendo açúcar. Tem uma perda de rentabilidade, porque era uma venda com um preço melhor por causa da cota preferencial, mas há outros destinos para onde podemos mandar açúcar”, afirmou. Entre as alternativas, ele citou a Europa e a Ásia. As vendas de açúcar aos EUA representam 4% da receita da empresa.

Há a possibilidade, porém, de que as usinas do Nordeste prefiram produzir mais etanol que açúcar se houver taxação, avaliou Maurício Murici, analista da Safras & Mercado. No momento, as usinas locais estão em entressafra, e voltarão a operar entre agosto e setembro, quando os EUA já devem ter tomado uma decisão sobre as tarifas. O escritório comercial americano (USTR, na sigla em inglês) estabeleceu 15 de julho como prazo para a adoção de medidas “corretivas”.

Para Murici, a tendência é que uma nova tarifa leve a um aumento da oferta de etanol no Nordeste em um primeiro momento, e em outras regiões depois. “Com mais etanol, as usinas do Nordeste podem reduzir as compras do Centro-Oeste, principalmente de Goiás, e vai gerar excedente de oferta no Centro-Oeste”, afirmou.

Outra consequência pode ser a redução das importações de etanol americano. “Com uma sobreoferta, a janela de importação, mesmo aberta, pode não ser praticada.”

Mercado de etanol

Para Lorencatto, da Coruripe, o receio em torno da discussão sobre as tarifas dos EUA é outro. “Abrir o mercado de etanol para os Estados Unidos é um problema”, disse. Atualmente, tanto os EUA como o Brasil vivem um excesso de oferta de etanol, e uma redução da tarifa facilitaria a entrada do produto americano no país, aumentando a pressão sobre os preços internos.

Em nota conjunta, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Bioenergia Brasil defenderam que “eventuais divergências comerciais devem ser tratadas por meio do diálogo e da negociação, preservando uma relação bilateral historicamente relevante para ambos os países e uma agenda comum voltada à promoção dos biocombustíveis e da transição energética”.

As entidades lembraram que “a tarifa aplicada pelo Brasil ao etanol importado segue a Tarifa Externa Comum do Mercosul e não constitui uma medida direcionada especificamente aos Estados Unidos”.

O USTR incluiu os principais produtos agropecuários exportados pelo Brasil, como café, carne e suco de laranja, em uma lista de exceções à nova tarifa. Mas outros itens, além do açúcar e do etanol, ainda podem ser alvo de tarifa. É o caso do café solúvel, da tilápia e da uva.

Café

A Associação Brasileira dos Cafés Especiais (BSCA, na sigla em inglês) disse em nota que restrições podem ter consequências negativas para toda a cadeia do café no Brasil. E informou que manterá contato com os americanos para prestar esclarecimentos que possibilitem a isenção de tarifas para todos os tipos de café do Brasil.

“Estamos tensos. A gente percebe que o governo dos Estados Unidos quer um acordo com o Brasil, e vai depender dessas negociações”, afirmou Aguinaldo José de Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics).

Pescados

A possível taxação da tilápia também levanta preocupações para o segmento de pescados. Para Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), é necessário buscar novos mercados com urgência. Os EUA são o principal destino das exportações de filé fresco de tilápia, com mais de 90% do volume.

Por sua vez, a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca) defendeu que o governo “articule e esclareça junto ao governo americano os critérios técnicos e comerciais que orientarão a definição dos produtos sujeitos às novas tarifas, especialmente no que diz respeito à exclusão dos pescados brasileiros”.

Frutas

Procurada, a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) disse que prefere aguardar a audiência sobre o tema, prevista para julho, antes de se posicionar. “Ainda se trata de uma proposta de taxação que está em discussão e poderá sofrer alterações ao longo das negociações”, afirmou. Embora a maioria das frutas tenha sido isenta, a uva ficou fora da lista. (Colaborou Luiz Eduardo Minervino)

*Para o Valor

Fonte: Globo Rural