Integração entre ciência, inovação e governança é chave para um futuro agrícola resiliente
12-01-2026

Foto: Gabriel Faria
Foto: Gabriel Faria

Nas últimas décadas, os ganhos de produtividade asseguraram a rápida expansão da agricultura brasileira, minimizando impactos negativos sobre o meio ambiente. Vencer os desafios atuais para assegurar um futuro agrícola sustentável e resiliente depende, agora, da integração entre ciência, inovação e governança. 

A conclusão é dos pesquisadores Maurício Lopes, da Embrapa Agroenergia, Geraldo Martha, da Embrapa Agricultura Digital, que examinaram como o Brasil pode garantir avanços frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, desmatamento e degradação do solo.

O estudo resultou no artigo   “Pathways to sustainability in Brazilian agriculture: technological drivers, governance, and policy linkages"   publicado na revista Current Opinion in Environmental Sustainability (COSUST), da editora Elsevier, em outubro.

O setor agrícola brasileiro é estratégico para a segurança alimentar global e fundamental para a economia nacional, representando cerca de 25% do produto interno bruto (PIB) e 26% do total de empregos, em 2022. No entanto, o sucesso futuro da agropecuária brasileira é ameaçado por problemas complexos e interconectados, que operam em escalas do local ao global, e que exigem soluções holísticas, diz o artigo.

“Ameaças iminentes, como mudanças climáticas, desmatamento e degradação do solo, lançam sombras de incerteza sobre a sustentabilidade e a resiliência da agricultura brasileira”, afirmam os pesquisadores.

A concretização dessa visão exige uma reavaliação das medidas de governança que harmonizam os avanços tecnológicos com as responsabilidades ambientais e sociais. “A integração de ciência, inovação e governança é essencial, requerendo abordagens como diálogo interdisciplinar, parcerias público-privadas e colaboração internacional”, defende Maurício.

Forças motrizes - O estudo focalizou dois grupos principais de forças motrizes: as tecnológicas e as não tecnológicas e como ambas podem fortalecer os caminhos para a sustentabilidade.

De acordo com os pesquisadores, as forças motrizes tecnológicas para a sustentabilidade são agrupadas em quatro domínios inter-relacionados, que são: biologia avançada e genética; agricultura digital e ciberinfraestrutura; ferramentas de gestão de risco climático; e intensificação agrícola sustentável (SAI) e novos sistemas alimentares.

Já os “drivers” não tecnológicos, governança e políticas públicas são essenciais para criar condições favoráveis à adoção de tecnologias e para guiar sua integração em sistemas agrícolas social e ambientalmente responsáveis. Ainda nesta dimensão, Geraldo Martha aponta a infraestrutura, citando estradas, armazenagem, portos e infraestrutura digital, bem como a qualificação do capital humano. 

Além disso, será cada vez mais estratégico trazer a dimensão da energia para essa discussão sobre o futuro da agropecuária”, diz o pesquisador. Segundo ressalta, por mais importante que seja a dimensão tecnológica, ela não ocorre em um “vazio político-econômico”. Portanto, a dimensão não-tecnológica tem papel estratégico na definição do potencial futuro da agropecuária brasileira, conclui.

Sobre governança:

  • Marcos legais - Lopes e Martha apontam o Código Florestal Brasileiro como um exemplo de governança pública ambiental significativa para a regulação da produção agrícola. Além de estabelecer as normas que determinam a conservação e a restauração da vegetação nativa em terras privadas, a Lei proporciona incentivos, criando estímulos para que os produtores rurais invistam em tecnologias que promovam a intensificação e a economia de terras.
  • Desafio para sustentabilidade - O maior desafio de governança no Brasil ainda é o desmatamento e seu impacto no meio ambiente e na percepção internacional. Equilibrar a necessidade de expansão agrícola com a preservação ambiental, a mitigação das mudanças climáticas e a promoção da conservação da biodiversidade são preocupações urgentes. Para lidar com isso, os autores apontam pontos como mais incentivos para o cumprimento das normas em todo o setor e um diálogo inclusivo que construa legitimidade entre as diversas partes interessadas.
  • Inovações em governança estratégica – As forças motrizes não-tecnológicas dependem também de uma governança eficaz que englobe estabilidade regulatória, alinhamento de políticas, cooperação público-privada e investimento de longo prazo em P&D. É também demandado, dentro do cenário de governança, reconhecer o papel do capital natural, dos recursos da natureza, no apoio ao progresso econômico e ao desenvolvimento social. Ao reconhecermos isso, reconhecemos o fundamento sobre o qual assenta a agricultura sustentável.

Maurício Lopes e Geraldo Martha afirmam que a concretização do potencial tecnológico exige um avanço paralelo na governança da sustentabilidade. Isso requer quebrar silos e promover a colaboração interdisciplinar entre pesquisadores, formuladores de políticas, stakeholders e comunidades locais.

As principais estratégias incluem a criação de forças-tarefa e consórcios multidisciplinares, o estabelecimento de parcerias público-privadas para facilitar a adoção de tecnologias, e o fortalecimento da colaboração internacional e a geração de conhecimento compartilhado, alinhando os esforços com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) globais.

Há desafios a serem superados para a implementação de pesquisa e desenvolvimento em sintonia com uma governança eficaz em sustentabilidade. De acordo com Lopes e Martha, alcançar este objetivo exigirá esforços coordenados de longo prazo, superando a fragmentação política e garantindo o crescimento inclusivo para todas as partes interessadas. 

Os riscos são altos, mas os benefícios potenciais são ainda maiores – uma agricultura que não só contribui para alimentar o mundo, mas também nutre o nosso planeta para as gerações futuras, avaliam os pesquisadores.

Apesar dos desafios, os autores defendem que o País tem o potencial de demonstrar como uma agricultura sustentável e resiliente pode prosperar mesmo diante de desafios sem precedentes. “Este é um apelo urgente que exige ações colaborativas fortalecidas, em sintonia com o imperativo global de alimentar uma população crescente e, ao mesmo tempo, proteger o planeta”.

Cristiane Vasconcelos (MTb 1639/CE)
Embrapa Agroenergia