Inteligência artificial avança no campo para reduzir custos, evitar paradas e ampliar produtividade agrícola
13-10-2026
Em painel no Congresso SAE Brasil 2026, executivo da PTx apresenta tecnologias que já permitem reduzir em 55% o uso de herbicidas em ensaio e destaca avanço da autonomia nas operações agrícolas
A inteligência artificial e a automação estão deixando de ser promessas para se consolidar como ferramentas de produtividade no agronegócio. Em um cenário de escassez de mão de obra e janelas cada vez mais curtas para as operações agrícolas, tecnologias que integram visão computacional, análise preditiva, conectividade e máquinas autônomas ganham espaço como alternativas para aumentar a eficiência no campo.
O tema foi debatido durante o painel “Inteligência artificial e automação no agro e o impacto em produtividade e nas operações no campo”, realizado em 8 de outubro, no Congresso SAE Brasil 2026, em São Paulo. A discussão reuniu Giancarlo Fasolin, gerente estratégico de Marketing para a América Latina da PTx, marca de agricultura de precisão da AGCO; Isabela Romano Rocha Aranovich, gerente para a América Latina de Sistemas de Produção da John Deere; e Sergio Sartori Junior, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Jacto. O painel foi moderado por Adriano Becker, gerente de Tecnologia de Precisão da CNH.
Durante sua participação, Fasolin apresentou exemplos de como a inteligência artificial já contribui para reduzir desperdícios, ampliar a disponibilidade dos equipamentos e melhorar o aproveitamento das janelas de trabalho. Um dos desafios é a dificuldade de contratação de trabalhadores rurais. Segundo levantamento da CNA e do Cepea-Esalq/USP, citado durante a apresentação, aproximadamente 95% dos empregadores rurais relatam dificuldades para contratar profissionais, enquanto 49% já registraram atrasos nas operações e 42% reduziram a produção pelo mesmo motivo.
Para Giancarlo Fasolin, o avanço tecnológico precisa ser medido pelos resultados que entrega ao agricultor, e não apenas pelo grau de sofisticação das máquinas. “A autonomia é um meio, não um fim. O produtor precisa conseguir realizar a operação certa, dentro da janela disponível, com precisão e o menor desperdício possível. É a integração dessas tecnologias que transforma inteligência artificial em produtividade”, afirma o executivo.
Pulverização seletiva reduz uso de herbicidas em ensaio
Entre os exemplos apresentados está a pulverização seletiva com visão computacional, tecnologia que utiliza câmeras e inteligência artificial para identificar plantas daninhas e direcionar a aplicação de herbicidas apenas aos locais necessários.
No sistema Symphony Vision, da Precision Planting, que integra a PTx, câmeras instaladas na barra do pulverizador analisam a lavoura em movimento. A partir das imagens, a tecnologia identifica a presença e as características das plantas daninhas e determina, em milissegundos, a necessidade de aplicação. Em um ensaio realizado pela PTI Farm, em Tremont, Illinois, nos Estados Unidos, a tecnologia proporcionou redução de 55% no uso de herbicidas na primeira aplicação pós-emergente em uma lavoura de soja. Além da economia de insumos, a aplicação direcionada pode contribuir para reduzir desperdícios e o impacto ambiental das operações.
Manutenção preditiva ajuda a preservar a janela agrícola
A análise preditiva também foi apontada como uma das aplicações relevantes da inteligência artificial no campo. Ao cruzar informações de sensores, histórico operacional e condições de uso, os sistemas podem identificar sinais de falhas e orientar intervenções antes que os equipamentos parem inesperadamente.
Segundo benchmark industrial da consultoria McKinsey, programas maduros de manutenção preditiva podem reduzir entre 30% e 50% as paradas não planejadas. Na agricultura, a disponibilidade dos equipamentos é especialmente importante porque atividades como plantio, pulverização e colheita precisam ocorrer em períodos determinados pelas condições climáticas e pelo desenvolvimento das culturas.
“Uma máquina parada durante a janela em que deveria trabalhar representa uma oportunidade de produtividade que não volta. Não basta ter o equipamento mais inteligente se ele não estiver disponível no momento necessário”, destaca Fasolin.
A tecnologia de autonomia assistida da PTx, conhecida por OutRun, já conta com duas operações desenvolvidas - preparo de solo e automatização da colheita com carreta graneleira - e permite que determinadas atividades sejam planejadas, acompanhadas e supervisionadas remotamente, reduzindo a necessidade de permanência contínua de um operador na cabine.
Um diferencial destacado pela PTx é a possibilidade de aplicação de tecnologias em máquinas existentes, por meio de retrofit, inclusive em propriedades que utilizam equipamentos de diferentes fabricantes.
Segundo Fasolin, a empresa prevê ampliar as soluções autônomas para outras etapas, como plantio e pulverização, com o objetivo de disponibilizar tecnologias de autonomia para todo o ciclo produtivo até 2030. Ele abordou a importância de ampliar a capacidade de processamento embarcada nos equipamentos. Para determinadas decisões, especialmente aquelas relacionadas à segurança e ao controle da operação, a resposta precisa ocorrer em milissegundos, sem depender exclusivamente da comunicação com sistemas em nuvem.
O operador assume um novo papel
A automação também está modificando as competências exigidas dos profissionais do campo. Em vez de controlar individualmente uma máquina durante toda a operação, o trabalhador pode passar a assumir atividades de planejamento, monitoramento e supervisão de equipamentos.
Essa transformação exige profissionais capazes de interpretar dados, acompanhar alertas e gerenciar diferentes máquinas simultaneamente. “A autonomia não elimina o operador. Ela transforma seu papel e amplia sua capacidade de produção. Em vez de uma pessoa dentro de uma máquina, caminhamos para um profissional capaz de supervisionar uma frota, com apoio de sistemas inteligentes”, explica Fasolin.

