La Niña deve reforçar oferta global de açúcar, indica Hedgepoint
25-11-2025
Clima segue como único fator de risco no horizonte
Por Andréia Vital
O mercado global de açúcar entra na reta final de 2025 com um sentimento claro: o ciclo 2025/26 deve ser de oferta confortável e preços pressionados. Segundo o relatório “La Niña: o que esperar para as commodities agrícolas?” da Hedgepoint Global Markets, os fundamentos permanecem decisivamente baixistas, com o superávit global projetado reforçado pelo avanço da moagem no Brasil, a normalização climática no Hemisfério Norte e a liberação de exportações pela Índia.
Os preços refletem esse ambiente. O açúcar bruto para março/26 atingiu 14,04 centavos de dólar por libra, a menor cotação em cinco anos, enquanto o açúcar branco dezembro/25 tocou US$ 406 por tonelada, patamar mais baixo desde dezembro de 2020. A consultoria aponta que, apesar de um leve repique após o fim da paralisação do governo dos EUA, o impulso macroeconômico não altera a tendência predominante.
O relatório da Hedgepoint destaca que o Centro-Sul do Brasil, que responde por cerca de 90% da produção nacional, teve desempenho melhor que o previsto após julho. A moagem ganhou ritmo e a produção acumulada já supera a da safra anterior.
Mesmo com o ATR permanecendo abaixo da média histórica, o setor compensou com maior volume processado. A Hedgepoint mantém projeção de 605 milhões de toneladas de cana moídas, ligeiramente abaixo de 2024/25, mas com mix de açúcar em níveis elevados. A produção total deve fechar em torno de 40,9 milhões de toneladas de açúcar, graças ao mix sustentado e ao recuo do petróleo, que reduziu a competitividade do etanol.
A consultoria avalia que eventuais desvios em Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, regiões onde o etanol pode ganhar espaço, não devem alterar o quadro geral de oferta.
A Hedgepoint também projeta uma safra sólida no Hemisfério Norte. Na Tailândia, a boa umidade durante o desenvolvimento da cana reforça expectativa de cerca de 10 milhões de toneladas. A consultoria alerta, porém, para monitoramento da intensidade do La Niña e seus possíveis efeitos no ritmo de colheita.
Na Índia, a projeção da ISMA de 30,95 milhões de toneladas, já descontado o desvio de 3,4 milhões de toneladas para etanol, sugere que o país manterá sua posição como pilar da oferta global. A área plantada subiu marginalmente 0,4%, mas o bom regime de chuvas, a melhora dos reservatórios e a evolução de variedades em estados-chave, como Maharashtra, Karnataka e Uttar Pradesh, sustentam a previsão.
O governo indiano autorizou 1,5 milhão de toneladas em exportações para 2025/26, alinhado às estimativas da Hedgepoint. Alterações nesse volume dependerão da paridade internacional e dos preços domésticos, que seguem como fator sensível para revisões de política.
ENSO: La Niña moderado deve favorecer a oferta, não os preços
Modelos climáticos indicam probabilidade crescente de manutenção do La Niña na virada para 2026. Segundo avaliação técnica citada pela Hedgepoint, o fenômeno tende a intensificar chuvas no Sudeste Asiático, elevando risco de alagamentos e atrasos logísticos; reduzir chuvas no sul da América do Sul, com impactos mais relevantes para Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina; favorecer umidade no centro-norte do Brasil, onde parte importante da cana para 2026/27 será estabelecida e mostrar correlação mais limitada com Índia e Tailândia, salvo eventos mais intensos.
Para 2025/26, porém, a consultoria ressalta que grande parte da produção já está definida, e que os efeitos do La Niña tendem a ser mais perceptíveis na formação da safra 26/27, especialmente no Brasil, caso haja estiagem prolongada nos estágios iniciais da cana.
Com o avanço da oferta nos principais polos produtores, aumento da disponibilidade exportável da Índia e recuperação plena do Centro-Sul, o consenso de mercado aponta para um superávit global significativo para 2025/26. A Hedgepoint afirma que a maior disponibilidade de açúcar de outras origens deve compensar sem dificuldades a entressafra brasileira nos primeiros meses de 2026.
Essa combinação mantém o mercado em um ambiente de preços deprimidos, com baixa volatilidade e pouca margem para valorização consistente no curto prazo.
A leitura dominante entre analistas é que os preços devem continuar pressionados até o início da safra asiática, com pouca capacidade de reação. O La Niña entra no radar como potencial gatilho altista apenas se evoluir para um evento mais forte e de longa duração. Por ora, porém, a Hedgepoint avalia que o fenômeno não modifica o quadro de abundância. “Projetamos uma oferta robusta, já refletida no fluxo comercial. A maior disponibilidade global deve neutralizar a entressafra brasileira, mantendo o mercado em cenário de excedente”, afirma Carolina França, analista da consultoria.
Com isso, o açúcar deve terminar 2025 em trajetória lateral ou levemente baixista, com o mercado atento a dois elementos: a intensidade real do La Niña e o desempenho das primeiras estimativas para a safra 2026/27.

