Logística do etanol avança no Brasil, mas tributação eleva custos
04-02-2026

Estudo do ESALQ-LOG mostra evolução da matriz de transporte impacto do PIS Cofins e reflexos no preço do biocombustível

Por Andréia Vital

A cadeia logística do etanol no Brasil passou por avanços relevantes na última década, com maior diversificação dos modais de transporte e ampliação do uso de soluções intermodais, mas ainda enfrenta entraves estruturais que afetam sua eficiência econômica e a competitividade do biocombustível no mercado interno. A avaliação consta da nova publicação da Série Logística do Agronegócio Oportunidades e Desafios Volume 9, elaborada pelo ESALQ-LOG, que analisou de forma detalhada as atividades de transporte e armazenagem do etanol no país e seus reflexos sobre a formação de preços.

De acordo com o relatório, o transporte rodoviário segue como o principal modal da cadeia, respondendo por 71% do volume de etanol movimentado no mercado interno em 2024. Apesar da predominância, o estudo mostra uma redução consistente da dependência das rodovias nos últimos anos, já que em 2019 esse percentual era de 82%. No mesmo intervalo, a participação das dutovias cresceu de 8% para 14%, enquanto o transporte ferroviário avançou de 6% para 10%, refletindo investimentos em infraestrutura e estratégias de ganho de escala logística, sobretudo nas regiões Centro-Sul e Centro-Oeste.

O levantamento indica que, em 2024, o Brasil produziu cerca de 36,9 milhões de metros cúbicos de etanol, sendo 24,1 milhões de metros cúbicos de etanol hidratado e 12,8 milhões de metros cúbicos de etanol anidro. Do total produzido, aproximadamente 95% foram destinados ao mercado interno, enquanto as exportações representaram cerca de 5% do volume, realizadas majoritariamente por transporte rodoviário até os portos, com forte concentração no porto de Santos.

Segundo o estudo, a logística do etanol envolve fluxos complexos que conectam polos produtores concentrados no Sudeste e no Centro-Oeste a centros consumidores distantes, exigindo coordenação entre usinas, bases de distribuição, terminais, ferrovias, dutovias e portos. Nos fluxos internos, além das rodovias, foram movimentados em 2024 cerca de 3,4 milhões de metros cúbicos por ferrovias, aproximadamente 5 milhões de metros cúbicos por dutovias e cerca de 1,2 milhão de metros cúbicos por cabotagem, além de volumes menores por hidrovias.

A análise da infraestrutura de armazenagem mostra que a capacidade nacional de tancagem de etanol está concentrada nas unidades produtoras, que respondem por cerca de 44% do volume total armazenável. Os terminais representam aproximadamente 22% da capacidade, enquanto as refinarias concentram pouco mais de 23%. As bases do ramo de combustíveis somam cerca de 10% da tancagem nacional e exercem papel estratégico na redistribuição regional, embora com limitações para armazenagem de longo prazo. O estudo ressalta que a capacidade restrita de estocagem nas usinas reforça a importância das empresas comercializadoras na gestão de estoques e na garantia do abastecimento ao longo da entressafra.

Um dos pontos centrais do relatório é o impacto da tributação sobre a logística do etanol, especialmente após a adoção do regime monofásico de PIS e Cofins. De acordo com o estudo, embora a sistemática concentre a arrecadação na origem da cadeia, ela gera acúmulo de créditos tributários não recuperáveis sobre despesas com frete e armazenagem, principalmente para as empresas comercializadoras, que são responsáveis por consolidar volumes, contratar transporte e utilizar tancagem externa.

As simulações realizadas pelo ESALQ-LOG indicam que a não recuperação desses créditos gera um impacto médio de 0,81% sobre o preço do etanol, o que corresponde a um aumento aproximado de R$ 0,03 por litro considerando o preço médio praticado em 2024. Em fluxos logísticos mais complexos, como aqueles que envolvem cabotagem associada ao transporte dutoviário, o impacto pode chegar a 1,65% do preço do combustível, elevando o valor final em até R$ 0,10 por litro, dependendo da cotação vigente.

Segundo Thiago Guilherme Pêra, pesquisador da Esalq, a estrutura tributária atual acaba penalizando modais mais eficientes e sustentáveis, o que vai na contramão dos objetivos de competitividade e descarbonização do etanol.

O estudo conclui que o encarecimento logístico decorrente da estrutura tributária pode comprometer a paridade de preços entre o etanol hidratado e a gasolina, fator determinante para a decisão do consumidor, além de reduzir a atratividade do biocombustível em um contexto de políticas públicas voltadas à transição energética.

Segundo o relatório, ajustes no tratamento tributário da logística são essenciais para preservar a eficiência econômica da cadeia, estimular o uso de modais de menor emissão e assegurar previsibilidade ao setor sucroenergético.