Manejo do bicudo da cana avança com guia técnico e rede colaborativa
22-06-2026
Nexfera reúne especialistas em Ribeirão Preto – SP e amplia estratégias contra a praga
Andréia Vital
O manejo do Sphenophorus levis, conhecido como bicudo da cana, ganhou novos instrumentos de apoio técnico com o lançamento do Guia de Boas Práticas para Manejo de Sphenophorus e da Rede Colaborativa de Experimentação, durante a Nexfera – Edição Sphenophorus, realizada na quinta-feira (18), em Ribeirão Preto – SP. O encontro reuniu pesquisadores, consultores, usinas, fornecedores, universidades e especialistas do setor sucroenergético para discutir avanços no enfrentamento de uma das pragas que mais desafiam a produtividade dos canaviais brasileiros.
A diretora de Marketing do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Suzeti Ferreira, destacou que a proposta da Nexfera é aproximar ciência e prática agrícola para acelerar a geração de conhecimento. "Estamos promovendo discussões robustas e trazendo mais dados, pesquisas de mercado e protocolos de manejo", afirmou.
A Rede Experimental lançada no encontro reúne empresas, especialistas e instituições em uma estrutura padronizada para testar hipóteses, validar estratégias e gerar evidências que auxiliem a tomada de decisão no campo. Já o Guia de Boas Práticas consolida conhecimentos científicos, resultados de pesquisas e experiências de campo para orientar produtores e equipes técnicas no monitoramento e controle da praga.
O guia parte do princípio de que o manejo eficiente depende do conhecimento da bioecologia do inseto. O Sphenophorus levis possui as fases de ovo, larva, pupa e adultos, sendo a fase larval a mais prejudicial à cultura, pois se alimenta da base da planta, abaixo do solo, comprometendo raízes, perfilhos e a longevidade do canavial. O ciclo completo varia de 60 a 110 dias, enquanto os adultos podem viver mais de 200 dias, dependendo das condições ambientais.
Outro aspecto destacado é que a população da praga sofre influência de fatores como temperatura, umidade, histórico de infestação e características da paisagem agrícola. Por isso, o material recomenda que as decisões não sejam baseadas apenas em calendários de aplicação, mas em informações obtidas por meio do monitoramento e do histórico de cada área.
Além disso, o guia alerta que o inseto pode utilizar plantas daninhas, restos culturais, milho e áreas com excesso de vinhaça como abrigo ou fonte de atração, o que exige atenção não apenas ao interior do talhão, mas também ao ambiente ao seu redor.
O documento dedica um capítulo ao monitoramento, apontado como ferramenta essencial para transformar suspeitas em diagnósticos precisos. Entre os métodos recomendados estão a avaliação visual de reboleiras e falhas de brotação, a retirada de touceiras para identificação de tocos atacados e a abertura de trincheiras durante a reforma do canavial para observar larvas, pupas e adultos recém-emergidos.
O uso de iscas confeccionadas com toletes de cana também é indicado para monitorar a movimentação dos adultos. Segundo o guia, os diferentes métodos devem ser utilizados de forma complementar e associados ao registro histórico das áreas, permitindo comparar resultados entre safras e priorizar regiões com maior pressão da praga.
As recomendações reunidas pela Nexfera indicam que a reforma do canavial representa um dos momentos mais importantes para reduzir a população do bicudo. O protocolo consensual elaborado a partir de pesquisas e discussões técnicas orienta concentrar as operações em períodos em que a maior parte dos insetos se encontra nas fases de larva e pupa, além de considerar fatores como histórico da área, presença de plantas daninhas, matas e regiões de aplicação de vinhaça.
Outra prática destacada é o vazio sanitário, que consiste em manter a área sem hospedeiros por cerca de 180 dias após a eliminação da soqueira. A medida pode ser adotada por meio do pousio ou da rotação de culturas e contribui para reduzir a sobrevivência dos adultos e interromper a continuidade da infestação.
Especialistas compartilham experiências
A programação da Nexfera contou ainda com apresentações sobre comportamento da praga, monitoramento e estratégias de manejo em cana planta e cana soca. O consultor Evaldo Takizawa, reconhecido pelo trabalho com o bicudo do algodoeiro, destacou a importância de compreender a paisagem agrícola para definir ações de controle. "A questão não é ensinar a matar o inseto, mas aprender a interpretar a paisagem agrícola onde ele se multiplica", afirmou.
Também participaram dos debates a pesquisadora Leila Dinardo, do Instituto Agronômico (IAC), que apresentou avanços no entendimento da praga e defendeu a destruição mecânica da soqueira infestada associada ao vazio sanitário, além do consultor Rogério Nascimento, da PlaniAgro, que compartilhou experiências de campo e destacou a influência das condições climáticas sobre a ocorrência do inseto.
Participaram ainda Mario Tittoto Neto, da Ipiranga Agroindustrial; Daniel Gualtieri, da Usina Cocal; Rodrigo Marques, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Vanessa Lorencini, do Grupo Santa Adélia; Fernando Pattaro, do CTC; e Fernando Iost, da SmartMIP.

