Mercado global de açúcar aponta excedente e pressão nos preços
17-06-2026
Oferta maior na Ásia e recuperação da Índia moldam cenário
Andréia Vital
A combinação de oferta crescente em importantes países produtores e demanda ainda insuficiente para absorver esse volume deve levar o mercado global de açúcar a um superávit de cerca de 2,8 milhões de toneladas em 2025/26. A projeção foi apresentada por John Adams, da GlobalData, durante recente reunião da Canaplan que discutiu os rumos do mercado internacional de açúcar.
Segundo o especialista, as cotações do açúcar bruto chegaram a reagir em março, acompanhando a alta do petróleo e alcançando cerca de 16 centavos de dólar por libra-peso. Desde o início de abril, porém, os preços voltaram a recuar de forma expressiva e passaram a operar abaixo de referências consideradas importantes para o mercado internacional.
Além da pressão exercida pelo aumento da oferta, o mercado acompanha os efeitos da instabilidade geopolítica sobre as commodities. O conflito envolvendo o Irã elevou os preços do petróleo e levou fundos especulativos a reduzirem posições vendidas no açúcar, ampliando a volatilidade dos negócios.
A expectativa de superávit global permanece mesmo após uma forte revisão para baixo da safra indiana. De acordo com Adams, colheitas acima do esperado na China, Tailândia, Paquistão e Europa compensaram a queda da produção na Índia, permitindo a manutenção de um balanço mundial positivo para 2025/26.
A Índia, no entanto, continua sendo um dos principais fatores de influência sobre o mercado. A produção do país em 2025/26 é estimada em aproximadamente 28 milhões de toneladas, resultado que reduziu significativamente os estoques domésticos. Para 2026/27, a expectativa é de recuperação da safra com expansão de área e melhora dos rendimentos agrícolas.
Mesmo com a perspectiva de aumento da produção, Adams avalia que a necessidade de recomposição dos estoques e os planos do governo indiano de ampliar a mistura de etanol na gasolina deverão limitar o retorno do país ao mercado exportador.
Na Tailândia, o cenário é diferente. A safra 2025/26 superou as expectativas, mas doenças nos canaviais e a maior atratividade econômica da mandioca, cultura que demanda menos insumos, podem reduzir a área destinada à cana na próxima temporada.
Entre os principais pontos de atenção para os próximos meses está o clima. A probabilidade de formação de um forte evento El Niño aumentou recentemente, elevando o risco de condições mais secas em importantes regiões produtoras da Ásia e de chuvas acima da média no Centro-Sul do Brasil.
Segundo Adams, os impactos sobre a produção brasileira são mais difíceis de prever. Já em países como Índia e Tailândia, o fenômeno costuma reduzir a produtividade agrícola e comprometer o potencial produtivo das safras subsequentes.
Do lado da demanda, a China segue no radar dos analistas. A possibilidade de recomposição de estoques, favorecida pela atratividade das importações, pode ampliar as compras chinesas e reduzir parte do excedente disponível no comércio global.
Para o Brasil, o cenário reforça a relevância do etanol na estratégia das usinas. Com a perspectiva de excedentes no mercado internacional, a paridade do biocombustível volta a ganhar peso nas decisões sobre o mix de produção pela primeira vez desde meados de 2022.
A avaliação da GlobalData é que os preços do açúcar devem permanecer entre 14 e 16 centavos de dólar por libra-peso ao longo de 2026, mas a evolução do El Niño e seus efeitos sobre a produção mundial continuarão sendo um dos principais fatores de monitoramento pelo mercado.

