O que explica o recorde de recuperações judiciais do agronegócio no Brasil e por que a crise preocupa toda a economia
15-06-2026
O agronegócio brasileiro vive um dos momentos mais delicados de sua história recente. Dados da Serasa Experian mostram que o setor registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior volume desde o início da série histórica, em 2021. O número representa um crescimento de 56,4% em relação aos 1.272 pedidos registrados em 2024 e quase quadruplica o volume observado em 2023, quando houve 534 solicitações.
O avanço das recuperações judiciais ocorre em um momento que chama atenção por uma aparente contradição. Apesar de o Brasil continuar registrando elevados índices de produtividade agrícola e sucessivos recordes de safra em diversas culturas, os resultados financeiros de muitos produtores e empresas do setor seguem pressionados. O aumento dos custos de produção, o endividamento acumulado nos últimos anos, a volatilidade dos preços das commodities, os juros elevados e as dificuldades de crédito têm reduzido as margens e comprometido a capacidade de pagamento de grande parte dos agentes do agronegócio.
Os sinais de deterioração financeira também aparecem nos índices de inadimplência. Segundo a Serasa Experian, 8,3% da população rural estava inadimplente no terceiro trimestre de 2025, um aumento de 0,9 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior.
O cenário preocupa porque o agronegócio ocupa uma posição estratégica na economia brasileira. Além de representar uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB), o setor movimenta uma extensa cadeia produtiva que inclui indústrias de insumos, fabricantes de máquinas e equipamentos, transportadoras, armazenadoras, cooperativas, instituições financeiras e empresas de serviços. Quando a crise se aprofunda no campo, seus efeitos tendem a se espalhar para diversos segmentos da economia.
O aumento das recuperações judiciais também tem impactado diretamente o ambiente de crédito. Com mais empresas em situação de inadimplência ou reestruturação, bancos e instituições financeiras adotam critérios mais rigorosos para a liberação de recursos, o que restringe o financiamento não apenas no campo, mas em diversos setores da economia.
Efeitos que se estendem para além do agronegócio
Embora o agronegócio concentre atualmente os números mais expressivos, o movimento não se limita ao setor rural. Empresas de segmentos distintos, como Oi, Ducoco, Grupo St e Bombril, também recorreram recentemente à recuperação judicial, reforçando que o instrumento passou a fazer parte do cotidiano empresarial em um ambiente econômico mais adverso e instável.
O contexto macroeconômico contribui para esse cenário, com juros elevados, crédito mais caro, consumo ainda pressionado, incertezas globais e tensões comerciais internacionais que afetam cadeias produtivas inteiras. A expectativa de melhora também permanece limitada para os próximos meses. Especialistas apontam que, mesmo diante da manutenção de bons níveis de produção agrícola, ainda não existem sinais consistentes de recuperação financeira para uma parcela importante do setor, especialmente entre produtores mais alavancados e empresas que acumularam dívidas nos últimos ciclos.
“O mercado brasileiro, assim como muitos países ao redor do mundo, tem enfrentado grandes dificuldades para se recuperar pós-pandemia, com as guerras e agora com as taxações. As oscilações políticas e econômicas globais têm grande impacto no cenário econômico interno. Os principais players do mercado sobreviveram nos últimos anos, mantendo suas operações no vermelho e recorrendo a empréstimos para evitar o fechamento”, explica Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial.
Recuperação judicial exige estratégia e gestão
Para especialistas, a recuperação judicial não deve ser encarada como solução automática ou atalho para resolver problemas estruturais. O uso do instrumento sem um plano consistente tende a prolongar a crise e dificultar a retomada sustentável do negócio.
“Em momentos de crise, é fundamental que as empresas compreendam que nenhuma organização está imune a problemas financeiros, e que estes podem surgir a qualquer momento. Investir em controles e gestão adequados é crucial para identificar e corrigir pontos de vulnerabilidade e garantir que o negócio se mantenha competitivo no mercado”, reforça Denis Barroso.
Nesse contexto, avaliar alternativas à recuperação judicial torna-se essencial. “As empresas precisam reavaliar sua estrutura organizacional, considerando não apenas a recuperação judicial, mas também opções como reestruturação interna e negociação com credores”, afirma Benito Pedro, sócio da Avante Assessoria Empresarial.
Ele ressalta que a decisão deve ser acompanhada de análise técnica e suporte especializado. “É importante ressaltar que, além da recuperação judicial, as empresas devem estar preparadas para explorar alternativas como a negociação direta com credores ou a busca por investidores, com o apoio de assessoria especializada. O acompanhamento profissional para entender as opções disponíveis e tomar decisões informadas é essencial nesse cenário de crise”, complementa.
O recorde de recuperações judiciais do agronegócio funciona como um sinal de alerta para toda a economia brasileira. Mais do que um problema restrito ao campo, o avanço da inadimplência e das reestruturações evidencia um ambiente de negócios cada vez mais pressionado. A crise que hoje afeta produtores rurais e empresas ligadas ao agro pode gerar reflexos em toda a cadeia econômica, impactando crédito, investimentos, geração de empregos e atividade empresarial em diversos setores. Em um cenário que ainda não apresenta perspectivas concretas de melhora, a adoção de gestão financeira rigorosa, planejamento estratégico e monitoramento constante dos riscos torna-se fundamental para a sobrevivência e a sustentabilidade dos negócios.

