Os caminhos para a agricultura brasileira reduzir a dependência de fertilizantes importados
11-05-2026

Giuliano Beggio, produtor de cana em Matão (SP): ele faz uma única aplicação de fertilizante químico na safra, em talhões de reforma de canavial — Foto: Thiago de Jesus
Giuliano Beggio, produtor de cana em Matão (SP): ele faz uma única aplicação de fertilizante químico na safra, em talhões de reforma de canavial — Foto: Thiago de Jesus

Agricultores investem no uso de biológicos e em boas práticas para sustentar altas produtividades em momento de alta no preço das matérias-primas

Por Danton Boatini Júnior e Nayara Figueiredo — Sabáudia e Santo Antônio do Paraíso (PR) e Matão (SP)

Um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o agronegócio brasileiro enfrenta um desafio importante a cada crise internacional: a grande dependência dos fertilizantes importados, que, segundo o Ministério da Agricultura, é de 85% em substâncias essenciais para a nutrição de plantas, como o trio NPK (nitrogênio, fósforo e potássio).

Em 2022, a guerra entre Rússia e Ucrânia fez disparar os custos de produção das lavouras. Os russos são os principais fornecedores de fertilizantes do Brasil: no ano passado, foram responsáveis por 25,9% do que o país comprou. Agora, com o conflito no Oriente Médio, que teve início em fevereiro, o mercado novamente estremeceu.

A ureia, matéria-prima mais utilizada na agricultura mundial como fonte de nitrogênio, acumula alta de 61%, segundo a consultoria StoneX. Como agravante, China e Rússia restringiram as exportações para priorizar os seus mercados domésticos.

"O agro nacional depende de fertilizantes que vêm de fora, porque não conseguimos produzir esses insumos aqui no volume que precisamos. O Brasil, no seu ápice de produção de nitrogenados, por exemplo, atendeu 25% de sua necessidade em 2015. De lá para cá, a demanda aumentou com a ampliação de áreas de plantio, mas a produção do insumo não cresceu na mesma proporção", explica Jeferson Souza, analista de mercado da Agrinvest.

Para se ter uma ideia, as importações de adubos químicos representaram 5,52% de tudo que o Brasil comprou no mercado externo no ano passado. Em valor, o produto foi o segundo mais importado, alcançando US$ 15,46 bilhões, atrás apenas dos óleos combustíveis, que somaram US$ 15,55 bilhões.

Se considerado o volume de importação, os adubos lideraram o ranking brasileiro em 2025, com 45,48 milhões de toneladas, um volume recorde, conforme dados do governo federal.

Nas lavouras, a conta também é alta. Os fertilizantes aparecem no topo da planilha como maior peso entre os custos de produção da soja.

Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea), o item representa 46,7% do custeio total, com um gasto de R$ 2.071,87 por hectare, na estimativa para a safra 2026/27 no principal estado produtor da oleaginosa. Em janeiro de 2026, antes do início da guerra, esse valor era calculado em R$ 1.896,18 por hectare.

Estratégias e inovação

Uma tentativa de reduzir a dependência externa do Brasil se deu com o Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022 pelo governo federal. A estratégia prevê o aumento da produção nacional a fim de atender de 45% a 50% da demanda interna até 2050.

Especialistas apontam que é possível alcançar a meta, mas isso depende de uma combinação de medidas que inclui investimento em pesquisa, diversificação de fontes e aumento da eficiência na utilização desses insumos.

“O uso de fontes diversas de nutrientes, como minerais alternativos, fertilizantes orgânicos, aproveitamento de resíduos e bioinsumos, também pode contribuir de forma relevante para reduzir a importação. Essas estratégias não substituem integralmente os fertilizantes convencionais, mas aumentam a eficiência de uso dos nutrientes no sistema produtivo”, analisa o agrônomo Everaldo Zonta, professor titular da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e membro do Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert).

Além do Plano Nacional de Fertilizantes, pelo menos seis projetos estão em andamento no país, segundo o Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert). Entre eles está o Projeto Autazes, no Amazonas, a cargo da Brazil Potash.

Em março, a empresa informou em relatório à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos que a iniciativa pode enfrentar oposição de comunidades indígenas, organizações da sociedade civil e órgãos públicos, o que pode gerar atrasos, elevar custos ou até levar à paralisação das atividades.

Para Bernardo Silva, diretor-executivo do Sinprifert, o Brasil possui recursos naturais para reduzir "drasticamente" a sua necessidade de cloreto de potássio e fertilizantes fosfatados, porém o arcabouço regulatório e ambiental traz insegurança ao investidor.

"Não estamos de forma alguma querendo que as medidas ambientais não sejam rigorosas, mas sim que o processo seja ágil, transparente e previsível para o investidor", diz.

Avanço no campo

Enquanto as iniciativas para mudar o mercado não se concretizam, os preços seguem voláteis e a demanda no campo não para, agricultores de norte a sul do país buscam alternativas para a redução de custos. A grande questão é: como trabalhar sem perda de eficiência?

Para especialistas, pelo menos uma parte da solução pode vir dos bioinsumos. O Brasil é considerado o líder global no uso desses tipos de produto na agricultura, fruto de um trabalho de pesquisa que se iniciou ainda na década de 1950.

A pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja,frisa que o país tem condições para aumentar o uso de biológicos de 10% para 40% "de imediato".

Destacada neste ano pela revista norte-americana Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, a cientista explica que o potencial de substituição de químicos por bioinsumos é considerado maior no caso do nitrogênio. E para que esse percentual cresça, segundo ela, é necessário investir em ciência.

"As soluções biológicas são muito mais baratas do que qualquer químico e podem ser produzidas aqui, com microrganismos daqui. Não precisa vir lá do Oriente Médio, ou da Rússia, ou do Canadá", afirma Mariângela, uma das desenvolvedoras da técnica de fixação biológica de nitrogênio (FBN), juntamente com a pesquisadora Johanna Döbereiner. 

Insumo estratégico: os números dos fertilizantes no Brasil

Foto: Globo Rural

A prática, realizada via inoculação, é um processo realizado por grupos de microrganismos que apresentam a enzima nitrogenase funcional, que é posteriormente utilizada como fonte de nitrogênio para a nutrição das plantas.

Para a atual safra de soja, se confirmada a produção prevista de quase 180 milhões de toneladas, a economia com a FBN é estimada em R$ 156,5 bilhões. Além disso, deixaram de ser emitidos cerca de 300 milhões de toneladas de CO2 equivalente, segundo cálculos da Embrapa.

Roberto Levrero, presidente do conselho deliberativo da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal (Abisolo), acredita que o país “jamais será autossuficiente em nitrogênio, fósforo e potássio, então o caminho é avançar nas tecnologias biológicas”.

Segundo ele, nos últimos anos, essa indústria desenvolveu produtos que podem levar a uma economia de 30% a 40% no processo de adubação.

E, embora as soluções já existam, o acesso do produtor a elas costuma ser o maior entrave – em especial para os pequenos e médios, uma vez que o mercado privilegia culturas de grande escala. A participação de associações, cooperativas e assistência técnica regional é vista como fundamental nesse processo.

Questionada sobre os primeiros passos necessários ao agricultor que pretende reduzir o uso de fertilizantes químicos, a orientação da pesquisadora Mariangela é de que os produtores procurem o apoio dessas entidades.

"A cooperativa tem como chegar numa indústria e falar: 'Quero embalagens pequenas'. Um pequeno agricultor não vai conseguir hoje achar um biológico e aplicar da forma correta sozinho", considera.

Redução de custos

Na Fazenda Santa Amália, em Santo Antônio do Paraíso (PR), o produtor e engenheiro agrônomo Ricardo Merheb Júnior, de 34 anos, investe na redução do uso de químicos, especialmente nos últimos três anos.

A estratégia adotada inclui a coinoculação no sulco de plantio (por meio das bactérias Bradyrhizobium e Azospirillum), o uso da bactéria fixadora de nitrogênio Methylobacterium via parte aérea e produção de microrganismos “on farm”, ou seja, na propriedade.

A tecnologia da coinoculação foi lançada na safra 2013/14, e hoje a sua adoção no Brasil soma mais de 17 milhões de hectares, o que representa cerca de 35% da área plantada com a oleaginosa no país. Já o uso do Bradyrhizobium corresponde a 85% da área de produção.

As técnicas têm sido divulgadas há sete anos em unidades de referência pela Embrapa Soja em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR).

Nessas unidades, observou-se um ganho médio de produtividade de cerca de 8%, sem necessidade de aplicação de fertilizante nitrogenado. Isso representa quase cinco sacas a mais por hectare. "Esses inoculantes têm um custo muito baixo frente ao retorno que eles trazem ao sistema de produção.

Isso refletiu em aproximadamente R$ 500 (a mais) por hectare", calcula Marco Antonio Nogueira, pesquisador da Embrapa Soja.

O avô de Ricardo Merheb, Bahig Mikhael Merheb, já falecido, veio do Líbano aos 26 anos e se estabeleceu no norte do Paraná. Comerciante nato, ele também investiu em propriedades rurais, que hoje são administradas pela família.

Na última safra, 840 hectares foram destinados à soja, com produtividade de 66 sacas por hectare. Outros 160 hectares foram destinados ao milho de verão e 314 hectares, ao milho safrinha. No inverno, a ideia é ocupar 520 hectares com trigo e 109 hectares com mix de plantas de cobertura.

Um aspecto que Merheb Júnior considera fundamental é a prática do "verdadeiro" plantio direto, sustentado em três pilares: mínimo revolvimento do solo, plantio sobre a palhada e rotação de culturas. Esse último item é apontado como estratégico para a estrutura biológica do solo.

“A rotação ajuda a diminuir o uso de adubos, principalmente quando é feito o planejamento com plantas de serviço que terão um maior aporte de nitrogênio no solo, como as leguminosas", descreve.

Segundo o produtor, o conjunto de práticas adotadas, em aliança com ferramentas da agricultura de precisão, permitiu reduzir em até 30% o uso de nitrogenados nas lavouras de grãos nos últimos anos.

Em outro momento de crise, durante a pandemia de covid-19, no ano de 2020, a família D'Agostini decidiu que era a hora de reduzir o uso dos fertilizantes convencionais na propriedade em Sabáudia (PR). Foi como se uma luz de alerta tivesse sido acesa.

"Da pandemia para cá, mudamos o nosso manejo pensando em construir e melhorar o perfil de solo para, numa hora de escassez, podermos reduzir a adubação", relata Cláudia D'Agostini, de 32 anos, que toca a propriedade ao lado da irmã Ângela, de 37, e do pai, Cláudio Vicente, de 82.

O manejo escolhido envolve um conjunto de práticas que inclui análise de solo, rotação de culturas, plantas de cobertura, inoculação e coinoculação. A família cultiva soja, milho e trigo em uma área de aproximadamente 400 hectares.

A inoculação é feita com a bactéria Bradyrhizobium, aplicada por meio líquido no sulco de plantio. Esse microrganismo fixa-se na raiz da soja e é capaz de absorver o nitrogênio do ar e ofertá-lo à planta, o que dispensa a necessidade de uso do adubo nitrogenado. Já a coinoculação se dá por meio de outro microrganismo, o Azospirillum. Seu efeito hormonal sobre a planta faz com que a soja apresente ganho de produtividade.

"Com as análises, vimos que o solo tinha certas deficiências nutricionais e, ao longo destes anos, conseguimos corrigir essas deficiências e fazer uma pequena reserva para em um momento como esse, de custo mais alto, podermos reduzir essa quantidade de adubação", confirma Ângela, citando as reservas de fósforo e potássio retidas no solo.

O resultado reflete não apenas nos custos de produção, mas também na hora da colheita. A produtividade, que estava estagnada, começou a apresentar crescimento desde a pandemia. São, em média, duas a quatro sacas por hectare a cada safra, ainda que o desempenho varie conforme o clima. A média de produção é de 70 sacas de soja por hectare.

Antes da pandemia, a adubação era feita de forma “genérica”, sem levar em conta as necessidades específicas do solo. Agora, a aplicação é planejada de acordo com as análises de cada ano.

Assim como muitos agricultores brasileiros, as irmãs D'Agostini ainda não concretizaram as compras de fertilizantes para a safra 2026/27, à espera do que irá acontecer com o mercado nos próximos meses. "Esperamos que daqui talvez a um mês haja alguma estabilidade no mercado, melhore um pouco o preço, então vamos arriscar aguardar", conta Ângela.

Para a safra de inverno, uma decisão já está tomada: não será feita cobertura com ureia. "Estamos estudando a possibilidade de usar um microrganismo via foliar que ajuda a fixar o nitrogênio", explica Cláudia.

O uso agrícola de resíduos, aliás, pode não apenas devolver nutrientes ao sistema, mas reduzir passivos ambientais e contribuir para uma lógica de economia circular.

"Um dos exemplos mais inusitados que conheço demonstrou de forma evidente que é possível desenvolver fertilizantes organominerais com eficiência comparável à dos fertilizantes industrializados (ou sintéticos), utilizando matrizes como o cascalho de perfuração de poços de petróleo do pré-sal e do pós-sal associado ao lodo de esgoto, eventualmente discriminado em função da presença de dejetos humanos", observa Everaldo Zonta, da UFRRJ.

O professor também afirma que, apesar de ser considerado um dos adubos orgânicos mais ricos em nutrientes, o esterco de galinha enfrenta limitações que dificultam sua adoção em larga escala.

A disponibilidade é concentrada em regiões com forte produção avícola, como o Sul do país, e o transporte para outras áreas eleva significativamente os custos, já que é necessário movimentar grandes volumes. “O melhor adubo, seja orgânico ou mineral, é aquele que está mais próximo e mais barato”, resume.

Solo rico

Por rodovias do interior paulista, onde canaviais preenchem a paisagem, um enorme corredor de lavoura se destaca, com plantas que seguramente atingem mais de 2 metros de altura. Estávamos em meados de abril, bem no início da nova safra, e a reportagem chegava à zona rural do município de Matão.

“E essa cana ainda vai ser colhida em junho. Diferente, né? É o ganho de produtividade”, revela Giuliano Beggio, CEO da Beggio Lorenzo gropecuária, negócio que foi de seu avô e já abrigou pecuária e cultivo de laranjas.

Em 2005, depois que o greening venceu a citricultura, houve a transição para a cana, que hoje é cultivada em 270 hectares, divididos em duas fazendas.

Giuliano, que é membro da Frente Empresarial Para a Regeneração da Agricultura (Fera), diz que é um entusiasta de estratégias que aliam a adoção de boas práticas com ganhos de produtividade e redução de custos.

Segundo ele, foi assim que a fazenda evoluiu em programas ligados a usinas e conquistou certificações. “Na agricultura, a gente tem que trabalhar com aquilo que a gente controla. E quando conseguimos produzir acima da média, os custos são diluídos”, cita o produtor.

Um dos primeiros passos foi a implantação das 160.000 árvores que margeiam as lavouras, uma iniciativa em parceria com a SOS Mata Atlântica que ajuda a criar um microclima mais fresco e colabora na manutenção de água no solo.

Na adubação, uma das alternativas é a aplicação dos fertilizantes organominerais, que aumentaram a eficiência dos nutrientes aplicados no solo e são utilizados na fazenda há cerca de dois anos. “Para a cana-de-açúcar, os ganhos médios (com o organomineral) estão em 12 toneladas por hectare, quando comparados à adoção somente de fertilizantes convencionais”, estima.

O organomineral também cria um ambiente propício para a proliferação de microrganismos “bons”, diz Giuliano, o que ajuda a preservar o solo e contribui para a adaptação aos impactos das mudanças climáticas. A Fazenda Beggio Lorenzo escapou dos efeitos severos de secas e queimadas ocorridas no Centro-Sul em 2024, por exemplo.

“Nós ainda podemos enriquecer o solo com bactérias, bacilos, fungos, que ajudam a reduzir o número de operações de campo, o que também é redução de custo com o diesel das máquinas”, sustenta.

O produtor descreve que a adubação convencional da cana varia de acordo com o sistema de produção e a etapa do ciclo – se é realizada em plantio ou na soqueira –, mas pode chegar a três aplicações de campo.

Na Beggio, é feita uma única aplicação de fertilizante químico na safra, em talhões de reforma de canavial que representam, em média, 20% da área da propriedade. Os organominerais também são aplicados uma vez ao ano.

"Outra prática de que eu gosto muito é o uso de resíduos da usina, através da torta de filtro, que é o que sobrou do processamento da cana. Essa aplicação aumenta a capacidade de retenção da água no solo, melhora a matéria orgânica e também diminui a necessidade de adubação convencional, porque essas tortas de filtro são ricas, por exemplo, em potássio”, acrescenta Beggio.

Segundo ele, essa combinação de produtos e práticas de manejo levou a uma redução entre 5% e 10% nos custos com adubos químicos nas últimas safras.

Os organominerais utilizados na propriedade de Giuliano são fornecidos pela Telo, fábrica da Coopercitrus em parceria com os sócios Campanelli, Tecnobeef, Amaggi, Souza e Lucas Participações e Grupo Viola, que está em seu primeiro ano de operação e prevê a comercialização de 60.000 toneladas só desse tipo de produto.

A cooperativa vende cerca de 1 milhão de toneladas de fertilizantes por ano, mas nos últimos anos foi perceptível a forte oscilação dos químicos, conta Fernando Degobbi, CEO da Coopercitrus. “O produtor está fazendo a conta da relação de troca na compra do adubo químico, e estamos vendo um aumento de demanda pelos organominerais”, afirma.

De acordo com ele, o papel da cooperativa é estar próxima aos agricultores, visto que muitas vezes o cooperado não adota novas tecnologias porque não tem comprovação sobre o que elas fazem.

Outra tecnologia de destaque no mercado de bioinsumos é a solubilização biológica de fosfato, fruto de uma linha de pesquisa da Embrapa de mais de 20 anos.

A pesquisadora Christiane Paiva, da Embrapa Milho e Sorgo, explica que o Biomaphos, primeiro inoculante solubilizador de fósforo desenvolvido no país, é formado por duas bactérias e dois bacilos que ajudam a planta a capturar o nutriente aplicado no solo. Lançado em 2019, o produto foi desenvolvido em parceria com a então empresa Bioma – hoje Cogny.

“É possível economizar de 10% a 20% em adubação com o uso do inoculante”, ressalta Christiane. A adoção, segundo ela, começou com soja e milho, mas hoje se estende a feijão, cana, algodão, trigo, pastagens e hortifrútis. Ela estima que, apenas em soja e milho, o produto seja utilizado atualmente em 10 milhões de hectares no país.

Limão orgânico

Nessa jornada por redução de custos, há quem tenha saído completamente dos químicos. Para Waldyr Promicia, maior produtor de limão orgânico do país, a virada foi acontecendo aos poucos, à medida que aumentavam as exigências de seu principal comprador, a União Europeia.

Por 12 anos, a produção de limões na Fazenda Itacitrus, em Inhambupe (BA), foi convencional, mas com tentativa e erro sobre o que poderia funcionar para reduzir os insumos químicos. A transição para o orgânico aconteceu entre 2012 e 2015. “E como você faz essa migração? Em vez de usar o NPK, você faz um composto orgânico. Já usamos esterco de granja, pó de rocha, organominerais.

Por um período, usamos resíduos de usinas de cana-de-açúcar. Usamos biológicos como inimigos naturais das pragas. Aos poucos, conseguimos fazer biofertilizantes e compostagem dentro da fazenda e chegamos a uma produção 100% orgânica”, relata.

Nesse processo, a propriedade não teve ganhos específicos de produtividade, mas conseguiu manter os mesmos rendimentos no campo, o que é considerado um dos pontos mais difíceis no caso dos orgânicos. A produtividade atual é de 30 toneladas por hectare, acima da média nacional, que está em 25 toneladas por hectare. O custo, por sua vez, ficou mais leve.

Promicia estima que a redução de despesas foi de 15% a 25%. “Antes eram feitas pelo menos 40 aplicações via fertirrigação, praticamente uma por semana, com doses altas. Agora a quantidade é quase a mesma, porém com doses muito menores de biofertilizantes, buscando muito mais a oferta dos elementos que já temos no solo”, diz o produtor.

Poupança no solo

Em 2025, o Brasil registrou um recorde de 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes entregues ao mercado, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). As importações somaram 45,5 milhões de toneladas, também uma máxima histórica, conforme dados do governo federal.

Mas o consenso no setor é de que a adoção do produto dificilmente se dará da mesma forma no ciclo 2026/27, tendo em vista a recente elevação dos preços. Uma semana após o início da guerra no Irã, a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) pediu, em comunicado, cautela aos agricultores na hora de adquirir o insumo.

"Quem puder fazer uma reanálise muito bem-feita no solo vai ver que tem um 'caixa', uma 'poupança' de fósfor o lá no solo. Agora, de repente, é a hora de usar essa poupança", orienta o presidente da Aprosoja Brasil, Mauricio Buffon.

Para o diretor-presidente do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), Daniel Glat, as lavouras de alta produtividade, onde os solos contam com os nutrientes em quantidades adequadas, têm condições de passar por uma safra sem adubos. "O problema é aquele agricultor mediano, cujo solo não dá conta completamente da situação, onde a redução do adubo pode, sim, ter um impacto econômico", observa.

Fonte: Globo Rural