Pacote biológico pode elevar produtividade da cana em até 10%
03-03-2026
Andreote defende manejo integrado no BioShow em Ribeirão Preto- SP
Por Andréia Vital
“Quando eu pego um sistema que não tem nada de biológico e monto um pacote bem estruturado, os microrganismos conseguem ajudar a produzir mais cana”. A afirmação é do Professor Titular em Microbiologia do Solo na ESALQ/USP, Fernando Dini Andreote, ao defender que a microbiologia deve ser tratada como componente estratégico da produtividade em cana-de-açúcar.
Segundo ele, na prática de campo, a adoção de um manejo biológico integrado pode gerar ganhos de 5% a 10% na cultura, desde que as ferramentas sejam selecionadas de forma criteriosa e alinhadas ao ambiente produtivo.
A análise foi apresentada durante o BioShow, novo evento do Grupo IDEA voltado ao manejo biológico e à produtividade da cana-de-açúcar, realizado em 25 de fevereiro, no Hotel Mont Blanc, em Ribeirão Preto - SP. O encontro reuniu produtores, gestores agrícolas, pesquisadores e empresas da cadeia.
Andreote destacou que 50% das áreas cultivadas no Brasil já recebem algum insumo biológico e que 80% dos tomadores de decisão consideram essas ferramentas no momento da compra. Para ele, o avanço em pouco mais de uma década mostra que os bioinsumos deixaram de ser alternativa experimental e passaram a integrar o planejamento técnico das propriedades.
O pesquisador reforçou que o solo é um sistema biológico ativo. Na camada de 0 a 10 centímetros, são centenas de quilos de biomassa por hectare, milhões de células por grama e milhares de espécies interagindo com as plantas. “Hoje eu tenho menos de 5% de fungos patogênicos no solo e menos de 1% das espécies patogênicas que atacam plantas. O sistema é majoritariamente benéfico ao solo e à planta”, afirmou.
Ele explicou que a agricultura simplifica o ambiente e reduz a biodiversidade, o que exige estratégias para recompor ou estimular a microbiologia. O manejo envolve duas frentes complementares, a inoculação de organismos benéficos e a melhoria do canavial como ambiente biológico.
Entre os grupos de bioinsumos apresentados estão biodefensivos, inoculantes, mitigadores de estresse hídrico e condicionadores biológicos. Nos biodefensivos, os mecanismos incluem antagonismo, produção de compostos inibitórios, parasitismo, competição por nicho e indução de resistência da planta. Já os inoculantes ampliam a autonomia vegetal ao converter formas insolúveis de nutrientes em formas solúveis, além de contribuir para a fixação biológica de nitrogênio.
Andreote chamou atenção para a escala do desafio. A microbiota nativa varia de 10⁷ a 10⁸ células por grama de solo, enquanto a inoculação representa de 0,01% a 0,1% do total microbiano. Em um hectare, considerando a camada de 0 a 10 centímetros, a aplicação pode atingir de 10¹¹ a 10¹² células, frente a 10⁸ a 10⁹ gramas de solo.
Ele também destacou a importância da seleção funcional. “Quem é o indivíduo? Não quem é a espécie. Dentro de Bacillus subtilis ou Trichoderma harzianum existem linhagens com potenciais diferentes”, afirmou, ao defender validação técnica e comparação de desempenho em campo.
No manejo da cana-de-açúcar, citou como grupos recorrentes Bacillus spp., Priestia formadores de endósporos, Trichoderma spp., Azospirillum brasilense, Methylobacterium symbioticum e fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae, além de condicionadores biológicos. A recomendação, segundo ele, deve considerar fase da cultura, ambiente e compatibilidade com outros insumos.
Confira:

