Para CEO da Raízen, Brasil não tem necessidade de eletrificação rápida
21-02-2024

“A eletrificação terá uma série de estágios. Na nossa visão como empresa, cada país terá um processo diferente. No Brasil, vemos uma eletrificação que vai passar pelo híbrido. O governo brasileiro não tem a mesma necessidade de outros países, como norte da Europa, de ter uma eletrificação mais rápida, pois eles não têm uma alternativa, não têm o etanol. Aqui no Brasil, a mudança virá pelo consumidor. É uma transição”.

A declaração foi dada pelo CEO da Raízen, Ricardo Mussa, durante um seminário dedicado à transição energética no país, promovido pela Folha de S. Paulo nesta segunda-feira, 19. Segundo ele, o Brasil tem uma “condição muito única”, com uma matriz renovável e grande presença do etanol.

Por sua vez, o presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), Ricardo Bastos, detalhou que “em breve” alguma das suas empresas associadas deve anunciar um carro elétrico compacto com preço em torno de R$ 100 mil. Ele explica que reduzir o valor dos veículos à bateria é um desafio devido aos aumentos de impostos.

Ainda segundo ele, os carros estão ficando mais baratos e esta deve ser a tendência, especialmente por conta do ganho de escala. O movimento é mais claro na China, segundo Bastos. “O principal ingrediente que encarece o produto é a bateria, mas o custo dela está reduzindo, assim como o dos minerais. A tendência é o carro elétrico cair de preço e do carro à combustão subir, devido às normas de emissão”, detalha o presidente da ABVE.

“Temos um cenário no Brasil que, há oito anos, era impossível imaginar: o excesso de energia elétrica. Temos energia barata e renovável, só que não conseguimos exportá-la. Como aproveitar o momento de energia barata e fazer com que o Brasil exporte outros produtos renováveis e use essa energia barata aqui dentro?”, Ricardo Mussa (Raízen)

Outros caminhos para o etanol

Mussa detalha outras atribuições para o etanol, indo além do uso em veículos. “É uma cadeia carbônica renovável, que serve para fazer plástico, tinta, químicos, bebidas e hidrogênio”, afirma e completa: “Há cinco anos, 20% na nossa produção era de etanol industrial; hoje é 50%. O etanol para outros usos está crescendo muito, pois o mundo está descarbonizando e o biocombustível é uma fonte muito barata de carbono renovável”, acrescenta.

Com isso, ele não visualiza ameaças eminentes para o renovável, considerando até mesmo que há mercado de sobra: “Não vejo risco de demanda para o etanol, ao contrário. Enxergo um problema de abastecimento, pois tem muita demanda vindo”.

Entre as potencialidades, ele cita o Japão. “É um grande mercado para o etanol brasileiro. Conversei com um o ministro de energia do país e perguntei por que eles não faziam o mercado japonês ir para o etanol e eles disseram que ‘não tem biocombustível suficiente para isso’”, relata.

O CEO da Raízen também cita outro caminho para o etanol muito apontado pelas empresas e especialistas da área: a aviação. Mussa visualiza que tal mercado é “muito grande” e que o setor não vai eletrificar no curto prazo; além disso, é responsável por 3% a 4% das emissões globais. “[O setor] já tem mandatos claros e o etanol é uma fonte muito evidente”, considera.

“Marketing ruim”

Outra consideração de Mussa é a baixa confiabilidade do investidor externo no mercado brasileiro. “Não tenho dificuldade de falar sobre o benefício da transição energética, do potencial verde do país, mas sim de falar do Brasil. Produzimos cana a mais de 2 mil quilômetros da Amazônia, mas quando converso com o investidor, ele diz: ‘está perto da Amazônia’”, considera.

Ele ainda completa: “Fizemos um marketing muito ruim do país lá fora, a imagem é muito negativa e não é a correta. A insegurança jurídica também é um dos problemas”, diz.

O CEO da gigante sucroenergética ainda pontua que, se todos os países do mundo aproveitassem suas vantagens competitivas para combater a questão climática e o aumento da temperatura, funcionaria melhor. “Mas é difícil fazer isso. Eu coordeno, pela Raízen, um grupo que trabalha com diversos países do mundo para isso ocorrer e é muito difícil”, relata.

Para Mussa, o grande desafio é fazer políticas públicas para atender não somente um país, mas um “bem maior”. Ele segue: “Estamos em uma posição muito privilegiada. A questão é o que vamos priorizar, quais ações o país vai tomar para beneficiar o Brasil e o restante do mundo”.

Fonte: Folha de São Paulo