Pesquisa da Unesp identifica nova espécie de inseto que ataca lavouras de cana
25-11-2025

Descrição da Mahanarva diakantha e análise genética abrem caminho para novos métodos de controle

Por Andréia Vital com informações do Jornal da UNESP

Pesquisadores da Unesp e da PUC-RS identificaram uma nova espécie de cigarrinha-da-raiz que já está presente em lavouras de cana-de-açúcar em diferentes regiões do país. A descoberta da Mahanarva diakantha, publicada no Bulletin of Entomological Research, responde a uma demanda direta do setor produtivo, que vinha registrando perda de eficiência nos defensivos tradicionalmente aplicados contra a praga.

A cana-de-açúcar tem peso estratégico na economia brasileira: gera cerca de 700 milhões de toneladas anuais e movimentou, em 2020, aproximadamente US$ 8,7 bilhões em exportações. Nesse contexto, pragas como a cigarrinha-da-raiz tornam-se um risco relevante, podendo causar prejuízos de até 36 toneladas por alqueire ao comprometer a seiva da planta e reduzir o teor de sacarose.

Historicamente, duas espécies são associadas ao ataque às lavouras, Mahanarva fimbriolata e Mahanarva spectabilis. A descrição da nova espécie surgiu após produtores procurarem a Unesp ao notarem que os defensivos aplicados deixaram de ser eficazes. A hipótese de resistência foi levantada inicialmente, mas análises conduzidas em conjunto com taxonomistas da PUC-RS indicaram que se tratava de um inseto distinto.

A investigação avançou por duas frentes. Na análise genética, pesquisadores da Unesp compararam um marcador de DNA mitocondrial com dados das espécies já conhecidas, identificando variações consistentes com uma linhagem diferente. A avaliação morfológica, por sua vez, mostrou diferenças claras na estrutura da genitália dos machos: enquanto as espécies tradicionais apresentam formato quadrangular, a M. diakantha possui estrutura bifurcada e pontiaguda, característica que inspirou o nome, que significa “dois espinhos”.

Cerca de 300 indivíduos coletados entre 2012 e 2015 foram analisados. Após a confirmação da nova espécie, revisões em coleções científicas revelaram registros antigos da década de 1960 que haviam sido classificados erroneamente como M. fimbriolata. A descoberta amplia o desafio do manejo, já que produtos eficazes contra uma espécie podem ter desempenho inferior contra outra, mesmo que próximas do ponto de vista evolutivo.

Para pesquisadores e técnicos, a identificação é apenas o primeiro passo. Os próximos estudos devem avaliar aspectos populacionais, taxas reprodutivas, diversidade genética e impacto de ferramentas de controle, especialmente o biológico, que utiliza o fungo Metarhizium anisopliae. A técnica é amplamente disseminada no país e considerada uma das aplicações de maior sucesso no mundo em controle biológico, atacando exclusivamente os insetos sem riscos à planta ou às pessoas.

Especialistas avaliam que a nova espécie não deve representar uma ameaça imediata de grandes proporções, mas pode ajudar a explicar casos em que as lavouras apresentaram resposta insatisfatória a tratamentos. O trabalho deverá se aprofundar no âmbito do Cepenfito, centro de pesquisa formado pela Unesp, Fapesp e Grupo São Martinho, que já desenvolve 55 projetos relacionados à fitossanidade da cana.

A descoberta se insere em um quadro mais amplo de desafios enfrentados pela cultura. Entre as principais preocupações atuais estão a síndrome do murchamento da cana, associada a estresses climáticos e biológicos, com potencial de reduzir a safra em até 40%, e o bicudo-da-cana, besouro que causa perdas médias de 25 toneladas por hectare e se dissemina rapidamente em áreas com colheita mecanizada.

Para os pesquisadores, a descrição da M. diakantha abre novas perspectivas para uma agricultura mais precisa. O sequenciamento integral do genoma das espécies de cigarrinha, já em andamento, pode permitir o desenvolvimento de soluções customizadas de combate, aumentando a eficiência do manejo e reduzindo custos para o setor. É um passo que reforça a importância da colaboração entre universidades, centros de pesquisa e a indústria e mostra como a ciência básica pode responder diretamente a problemas concretos enfrentados pelo agronegócio brasileiro.