Por um bom tempo, os canaviais serão implantados por várias modalidades de plantio
28-08-2019

Plantio mecanizado com tolete deve liderar o plantio de cana por muito tempo.
Plantio mecanizado com tolete deve liderar o plantio de cana por muito tempo.

Manual, semi-mecanizado, mecanizado com tolete, em meiosi, muda pré-brotada e até com semente artificial de cana. O setor tenta tudo em busca do plantio com excelência

 

Os drones sobrevoam os canaviais detectando falhas, realizam aplicações localizadas de defensivos para controlar plantas daninhas e pragas, ou então liberam agentes de controle biológico. Também softwares, apps e várias ferramentas de conectividades marcam presença no campo, não deixando dúvidas de que o setor já respira o canavial 4.0.

No entanto, em uma operação fundamental para a lavoura canavieira, o PLANTIO, a força humana volta a ganhar espaço sobre o avanço das máquinas. Isso porque o setor não está satisfeito com o desempenho dessa operação.

A prática do plantio de cana com máquina começou a ganhar força por volta de 2006, em decorrência da expansão canavieira, da necessidade de cobrir grandes áreas em menor tempo, da escassez de mão de obra e como uma opção de reduzir custos trabalhistas. Além do mais, era uma questão lógica introduzir a máquina também no plantio, uma vez que a colheita estava em ritmo acelerado de mecanização. E as máquinas já eram essenciais em outras culturas.

Mas o resultado não foi o esperado, o principal problema verificado foi a necessidade do aumento significativo da quantidade dos toletes para o plantio de um hectare de cana-de-açúcar. Quando o sistema era manual, cerca de dez a 12 toneladas de toletes cobriam um hectare. Com a introdução do plantio mecanizado, verificou-se que eram necessárias de 16 a 20 toneladas de toletes para cobrir a mesma área. 

 

A gema da cana não deve ser abalada, por isso, o cuidado começa na colheita da cana-muda
Crédito: CanaOnline

 

Uma das principais razões para a necessidade do elevado número de toletes no plantio é que as gemas neles presentes são muito sensíveis, fáceis de serem danificadas, o que ocorre frequentemente durante todo o processo.  A começar pela colheita das mudas. Nesta etapa, muitos toletes já são recolhidos com gemas danificadas. Logo depois da colheita, esses toletes sofrem nova agressão em sua passagem para os veículos de transbordo que vão levá-los para o local de plantio. E novamente passam por outra agressão ao serem despejados nas plantadoras.

Com a gema danificada não há brotação, levando às falhas nos canaviais, o que significa redução de produtividade. A alternativa mais adotada foi aumentar a quantidade de toletes por hectare, a fim de tentar compensar, ao menos em parte, a esperada perda de gemas viáveis.

O setor também reclama da falta de tecnologia das plantadoras que, por exemplo: não dosam adequadamente a quantidade de toletes que devem ser lançados no sulco, por unidade de tempo e área. Ao despejarem maior quantidade de toletes do que o ideal, além de consumir mais muda, ocorre também o aumento da competição entre eles. Com isso, nem todas as gemas vão germinar.

Outro ponto que desagrada o setor é que as máquinas não acompanham o ritmo necessário para a implantação da lavoura. Enquanto uma plantadora de grãos plantas dezenas de ruas ao mesmo tempo, a de cana planta só até duas linhas de cada vez. Essa característica eleva a necessidade de tráfego para a conclusão do plantio em determinada área, aumentando assim o pisoteio do solo (compactação), que é um dos principais fatores de queda de produtividade a médio e longo prazos nas lavouras de cana-de-açúcar brasileiras.

 

DE VOLTA AO PASSADO

 

Mais de 40% da área de renovação na safra 2018/19 foi com plantio manual
Crédito: CanaOnline

Descontentes com o resultado do plantio mecânico, alguns grupos sucroenergéticos e, principalmente produtores de cana, estão retornando ao plantio manual. Algo impensado até a safra 2015/16, quando o percentual de plantio com máquina atingiu seu ápice com 77,1%, como aponta levantamento do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresa (Pecege/Esalq/USP).

Esse mesmo levantamento mostra que essa tendência começou a cair logo na safra seguinte, a de 2016/17, que registrou 56,6%. A queda se manteve na safra 2018/19, quando o plantio mecânico cobriu 52% da área plantada na área tradicional de cana espalhada pelos Estados de São Paulo e Paraná.

Na visão de Patrícia Fontoura, gerente de Planejamento e Desenvolvimento Agrícola da Cofco Internacional, que conta com quatro unidades sucroenergéticas no interior paulista, o retorno ao plantio manual é um retrocesso e inviável para as grandes áreas, como os 40 mil hectares plantados anualmente pela Cofco.

 

“As máquinas têm sua parcela de culpa, mas o setor também, pois tem negligenciado as boas práticas agrícolas, diz Patrícia
Crédito: CanaOnline

 

Segundo Patrícia, as máquinas têm sua parcela de culpa, mas o setor também, pois tem negligenciado as boas práticas agrícolas. Deixando de realizar um bom preparo de solo, adequá-lo para receber as máquinas, além de, muitas vezes, acelerar as colhedoras de cana na colheita de muda, para poder cumprir o prazo de plantio. E essa correria danifica as gemas provocando falhas na brotação. “É preciso melhorar o conjunto como um todo. E mudar conceitos dá trabalho, muitas vezes é mais fácil voltar a fazer o que já se praticava ao invés de aprimorar o que é novo. Mas há quem esteja fazendo isso, pois no setor há vários exemplos de quem obtém bons resultados com o plantio com máquina”, diz.

Natalia Zanon, gerente de Gestão de Desempenho, Qualidade Agroindustrial e Originação de Cana da Usina Cevasa, de Patrocínio Paulista, concorda com Patrícia de que é um retrocesso a volta ao plantio manual de cana e que é insustentável plantar manualmente grandes áreas de renovação.

 

“Com todas essas inovações no campo, 13 toneladas de mudas de cana por hectare ainda é muito”, observa Natalia
Crédito: CanaOnline

 

“Mas se há quem esteja retornando ao plantio manual, é porque existe insatisfação, então, é preciso melhorar. Profissionais do setor, produtores e representantes de montadoras precisam conversar e aprimorar o modelo que está em prática. Com tantos avanços tecnológicos no agro, não é possível que vamos voltar a plantar cana de forma manual. Também não devemos ficar satisfeitos por conseguirmos chegar à quantidade de 13 toneladas de cana por hectare. Ainda é muito. Precisamos de novas tecnologias, aliadas às boas práticas para que o plantio de cana se iguale, ou pelo menos se aproxime, do nível tecnológico do plantio de outras culturas”, salienta Natalia.

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