Raízen amplia prejuízo, acelera venda de ativos e reforça travas do açúcar para conter pressão financeira
17-11-2025
Companhia intensifica foco em desalavancagem, eficiência operacional e hedge comercial após registrar trimestre marcado por perdas e aumento da dívida
Por Andréia Vital
A Raízen encerrou o segundo trimestre da safra 2025/26 com um prejuízo líquido de R$ 2,3 bilhões, resultado muito superior à perda de R$ 158 milhões registrada um ano antes, refletindo margens pressionadas, desempenho mais fraco na Argentina e menor volume comercializado de açúcar e etanol. O EBITDA ajustado caiu para R$ 3,3 bilhões, afetado pela menor contribuição do EAB e pelo ambiente macro adverso no país vizinho, onde a forte desvalorização do peso reduziu a capacidade de repasse de preços no negócio de combustíveis.
Apesar de cortes de R$ 315 milhões em despesas gerais e administrativas no semestre, a geração de caixa insuficiente contribuiu para elevar a dívida líquida em R$ 17,5 bilhões em 12 meses, movimento também influenciado pela conversão de dívidas de curto prazo em passivos de longo prazo. A alavancagem atingiu 5,1 vezes o EBITDA ajustado, nível que acende alerta sobre a capacidade de investimentos da companhia.
Na operação agrícola, a moagem foi impactada pela hibernação das usinas do Bioparque MB, localizado em Morro Agudo – SP e Santa Elisa, em Sertãozinho -SP, e pela venda de 1,3 milhão de toneladas de cana. Ajustado por esses fatores, o volume teria se mantido próximo de 58,3 milhões de toneladas. O mix permaneceu voltado ao açúcar, enquanto o etanol se beneficiou da maior competitividade frente à gasolina.
Na teleconferência realizada na noite de sexta-feira (14), executivos reforçaram que a prioridade para 2026 será a desalavancagem, com redução do Capex, hoje projetado entre R$ 9 bilhões e R$ 9,8 bilhões, e aceleração do programa de desinvestimentos. A companhia estima concluir R$ 3,9 bilhões em vendas de ativos nas próximas semanas; o montante total previsto é de R$ 5 bilhões, dos quais R$ 1 bilhão já foi capturado.
O ambiente argentino segue como um dos principais vetores negativos do trimestre. Embora as vendas tenham aumentado, a inflação elevada e a volatilidade cambial limitaram repasses e reduziram margens. A subsidiária tem trabalhado para elevar eficiência e reduzir custos operacionais.
No mercado acionário, a reação tem sido dura: os papéis acumulam queda de 59% em 2025 e encerraram o pregão recente a R$ 0,87. Analistas apontam que a visibilidade reduzida sobre desalavancagem e geração de caixa mantém o valuation pressionado.
Um dos pontos que tiveram melhor recepção do mercado foi o avanço da estratégia de fixação de preços. A Raízen já travou praticamente 100% do açúcar da safra 2025/26 a 111 centavos de real por libra-peso e cerca de 50% da produção de 2026/27 a 114 centavos. A medida mitiga o impacto do recuo acentuado das cotações internacionais, que alcançaram mínimas de cinco anos em Nova York.
Segundo o head de RI, Phillipe Casale, a política comercial reduz a exposição à volatilidade em um momento em que os preços do açúcar operam abaixo do custo de produção de diversos competidores globais. A expectativa é que a estratégia contribua para estabilizar margens nos próximos trimestres.
A empresa projeta recuperação gradual da produtividade no próximo ciclo, após a retomada de áreas afetadas por queimadas e normalização das condições climáticas. A moagem deve encerrar a safra atual próxima ao piso do guidance, entre 72 milhões e 75 milhões de toneladas, abaixo das 78,2 milhões do ciclo anterior. No semestre, o volume recuou 6,4%, para 59,6 milhões de toneladas.
A Raízen reafirmou que o programa de venda de ativos permanece como eixo central da recomposição de caixa. A companhia reduziu o parque industrial de 30 para 24 usinas, considerando hibernações e alienações, e estima receber R$ 4 bilhões adicionais até o fim da safra. Shell e Cosan, controladoras do grupo, acompanham de perto a execução do plano, mas não detalharam movimentos adicionais de capitalização.

