Regulação ambiental pode impulsionar crescimento e agroindustrialização, mostra estudo
15-05-2026

Ilustração
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Nota para Políticas Públicas aponta que proibição de queimadas na cana-de-açúcar em São Paulo acelerou a mecanização, aumentou renda e reduziu pobreza 

A regulamentação ambiental pode atuar como motor de transformação produtiva e crescimento econômico, especialmente em contextos com forte integração entre agricultura e indústria. Essa é a principal conclusão da Nota para Políticas Públicas   "Do campo às fábricas: como a proibição de queimadas em São Paulo impulsionou a industrialização".   A publicação sintetiza os resultados do estudo acadêmico    "Structural Change Through Environmental Regulation: Evidence from São Paulo's Fire Ban",   assinado por Francisco Costa, Francisco Luis Lima Filho e Leticia Nunes. 

O estudo analisa os efeitos da proibição da queima pré-colheita da cana-de-açúcar, implementada em 2002 no estado de São Paulo, e mostra que a medida não apenas reduziu a poluição do ar, mas também acelerou a adoção de tecnologias mais produtivas, fortalecendo a agroindústria local. 

Antes da regulamentação, a colheita da cana dependia da queima da palha e do corte manual realizado por trabalhadores sazonais. Com a proibição, esse modelo tornou-se inviável, levando à rápida adoção da colheita mecanizada. Em poucos anos, a mecanização saiu de níveis baixos para mais de 60% da área colhida até 2012. 

A transição tecnológica provocou uma forte redução do emprego agrícola, mas, ao contrário do que se poderia esperar, não resultou em deterioração das condições econômicas. Os dados mostram que os trabalhadores deslocados foram majoritariamente absorvidos pela indústria de processamento de açúcar e etanol, que cresceu em paralelo à mecanização. 

Entre 2000 e 2010, a mecanização foi responsável por cerca de 77% da queda do emprego agrícola e por aproximadamente 74% do aumento do emprego industrial nos municípios produtores de cana-de-açúcar. Esse movimento resultou em uma transição produtiva marcada pelo fortalecimento da agroindústria e pela integração entre a produção agrícola e o processamento industrial. 

Os impactos econômicos e sociais foram expressivos. Nos municípios com maior avanço da mecanização, a renda familiar per capita aumentou em quase 6%, o desemprego caiu cerca de 24% e a pobreza foi reduzida em aproximadamente 13%. Também houve redução do trabalho infantil, com queda de quase 10% na participação de crianças de 10 a 15 anos no mercado de trabalho. 

Segundo os autores, os resultados desafiam a visão tradicional de que políticas ambientais representam um entrave ao crescimento. Ao induzir a adoção de tecnologias mais eficientes, a proibição de queimadas funcionou como um catalisador da modernização econômica, com efeitos positivos sobre renda e emprego. 

A pesquisa utilizou dados de satélite sobre a adoção da colheita mecanizada, combinados a microdados do censo, para analisar os efeitos em 393 municípios paulistas entre 2000 e 2010. Para identificar a relação causal entre a política e os resultados econômicos, os pesquisadores exploraram variações exógenas na inclinação do terreno, fator que influencia o custo e a viabilidade da mecanização. 

Os achados mostram que a expansão industrial ocorreu de forma concentrada em setores diretamente ligados à cadeia da cana-de-açúcar, como o processamento de açúcar e etanol. Isso evidencia que os efeitos da regulamentação dependem das características produtivas locais, especialmente da presença de uma indústria capaz de absorver a mão de obra deslocada. 

O texto também destaca implicações relevantes para políticas públicas. Entre elas, a importância de alinhar regulamentação ambiental com incentivos à produtividade, avaliar previamente as cadeias produtivas e investir em infraestrutura e integração entre agricultura e indústria. O estudo também ressalta a necessidade de antecipar a realocação da força de trabalho, de forma a garantir que a transição gere ganhos econômicos amplamente distribuídos. 

Os resultados indicam que políticas ambientais, quando alinhadas a incentivos tecnológicos e à estrutura produtiva local, podem funcionar como instrumentos de transformação econômica, promovendo simultaneamente ganhos ambientais, aumento de renda e redução da pobreza.

Acesse a Nota para Políticas Públicas completa aqui.

Sobre a Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade (Rede PP&S)

Lançada em dezembro de 2025, a Rede PP&S é uma rede interinstitucional de pesquisadores da área de economia que trabalham com questões relacionadas à produtividade e sustentabilidade em suas múltiplas dimensões. Seu objetivo é fomentar pesquisas de ponta nessa área no Brasil e promover a integração dos pesquisadores brasileiros à comunidade acadêmica internacional.

SOBRE OS AUTORES

Francisco Costa

Professor associado de Economia na FGV EPGE, com foco em economia ambiental e em desenvolvimento econômico. Atua como editor associado do Journal of Development Economics, como membro do Comitê Científico da Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade (Rede PP&S) e como pesquisador convidado da J-PAL. É doutor em Economia pela London School of Economics.
 

Francisco Luis Lima Filho

Economista sênior do Banco ABC Brasil. Obteve seu doutorado em Economia pela Fundação Getulio Vargas (EPGE/FGV) em 2020 e foi pesquisador visitante na Duke University. Antes de sua função atual, trabalhou em instituições multilaterais, na Climate Policy Initiative (CPI) e em outras instituições do mercado financeiro.

 Leticia Nunes

Professora assistente no Insper. Ela obteve seu doutorado em Economia pela Fundação Getulio Vargas (EPGE-FGV) em 2019 e foi pesquisadora visitante na Northwestern University em 2016–2017. Em 2020, recebeu o Prêmio ANPEC Haralambos Simeonidis de melhor tese de doutorado. De 2019 a 2021, atuou como pesquisadora sênior no Instituto de Estudos de Políticas de Saúde (IEPS). Sua pesquisa situa-se na interseção entre economia da saúde, microeconomia aplicada e organização industrial.

Larissa Magalhães