Setor bioenergético e ANA avançam em acordo sobre telemetria na irrigação de salvamento da cana-de-açúcar
16-12-2025

Impossibilidade estrutural de implantação da telemetria em sistemas móveis de captação de água utilizados na irrigação de salvamento foi um dos motivos que levaram agentes do setor a convocar reunião. Foto: Banco de imagens internet
Impossibilidade estrutural de implantação da telemetria em sistemas móveis de captação de água utilizados na irrigação de salvamento foi um dos motivos que levaram agentes do setor a convocar reunião. Foto: Banco de imagens internet

Prazo para exigência de monitoramento remoto será prorrogado até 2027 após debate sobre limitações técnicas e operacionais dos sistemas de irrigação de salvamento

Autoridades do setor bioenergético nacional participaram, na última semana, de uma reunião na sede da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em Brasília, para discutir solicitações da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) e da Bioenergia Brasil relacionadas à obrigatoriedade de automonitoramento do uso da água, por meio de sistemas de telemetria, em corpos hídricos de domínio da União.

O encontro ocorreu às vésperas do fim do prazo estabelecido pela Resolução ANA nº 188/2024, diante da avaliação de que o setor não conseguiria cumprir integralmente determinados requisitos técnicos exigidos dentro do período estipulado. Estiverem presentes representantes da ANA, da UNICA, da Associação da Indústria da Bioenergia e do Açúcar de Minas Gerais (SIAMIG Bioenergia), do Grupo de Irrigação e Fertirrigação de Cana de Açúcar (GIFC) e de grupos canavieiros, como São Martinho, Santa Adélia, BEVAP, Pedra e Coruripe.

Segundo o Consultor Ambiental e de Recursos Hídricos da UNICA, André Elia Neto, o principal impasse está na impossibilidade estrutural de implantação da telemetria em sistemas móveis de captação de água utilizados na irrigação de salvamento da cana-de-açúcar.

Ele explica que, diferentemente de sistemas fixos, esse modelo opera com motobombas e tubulações desmontáveis, instaladas apenas em períodos específicos do ano e integralmente retiradas ao término da safra, podendo o mesmo equipamento de captação ser utilizado em mais de um ponto ou trecho outorgado.

“Por conta desse caráter itinerante, essa modalidade de irrigação apresenta restrições técnicas e operacionais que inviabilizam a adoção da telemetria, especialmente pela ausência de infraestrutura adequada de energia elétrica e comunicação, o que limita a transmissão remota de dados em tempo real com a tecnologia atualmente disponível”, afirmou Elia Neto.

André Elia Neto: “Por conta de seu caráter itinerante, a irrigação de salvamento apresenta restrições técnicas e operacionais que inviabilizam a adoção da telemetria”

Foto: Arquivo pessoal

O consultor acrescenta que as condições ambientais de campo — como alta umidade, poeira, intempéries, falhas de sinal, ausência de eletricidade, risco de furtos e dificuldade de acesso — comprometem a durabilidade e o desempenho dos sensores, gerando falhas de comunicação e custos elevados de manutenção. “Em muitos casos, a instalação da infraestrutura necessária para garantir o funcionamento contínuo da telemetria representaria um investimento desproporcional em relação ao volume de captação e ao benefício regulatório esperado.”

O tema já vinha sendo discutido desde outubro, quando UNICA, SIAMIG e BIOSUL (Associação de Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul) formalizaram à ANA, por meio de ofício, as dificuldades técnicas e solicitaram a prorrogação do prazo. Como desdobramento, foi criado um grupo de trabalho e realizada uma reunião em Brasília, no dia 9 de dezembro, para aprofundar o debate.

Durante o encontro, o setor apresentou duas demandas centrais: (1) adoção de um modelo híbrido de monitoramento, combinando registros manuais auditáveis e georreferenciados, como horímetros ou hidrômetros, com indicação de data, volume captado e coordenadas do ponto e planilhas eletrônicas de consolidação periódica; (2) prorrogação do prazo para exigência da telemetria móvel até 1º de janeiro de 2027, de modo a assegurar uma transição regulatória responsável, técnica e economicamente viável.

Reunião contou com representantes da ANA, da UNICA, da SIAMIG Bioenergia, do GIFC e de grupos canavieiros, como São Martinho, Santa Adélia, BEVAP, Pedra e Coruripe

Foto: Divulgação

Ao final das discussões, houve entendimento entre as partes. A ANA anunciou que irá expedir um ofício prorrogando o prazo até janeiro de 2027 para sistemas móveis de irrigação de salvamento em cana-de-açúcar. Também ficou definida a realização de um workshop em janeiro de 2026 e de uma nova reunião do grupo de trabalho em agosto do mesmo ano, com foco na avaliação de soluções técnicas em conjunto com prestadoras de serviços de telemetria.

Para André Elia Neto, o resultado foi positivo. “A prorrogação do prazo traz um alívio importante ao setor e permite que as discussões avancem de forma técnica e responsável. O objetivo é chegar a uma solução que atenda às necessidades de fiscalização da ANA, mas que seja viável para as usinas dos pontos de vista técnico e operacional.”

O processo de diálogo foi reforçado por uma reunião prévia, realizada no dia anterior ao encontro principal, entre o Grupo de Irrigação e Fertirrigação de Cana de Açúcar e técnicos e executivos da ANA. Consolidado como uma associação sem fins lucrativos voltada à difusão de conhecimento sobre irrigação e fertirrigação da cana-de-açúcar, o GIFC apresentou um panorama detalhado da situação atual do setor, abordando os impactos das mudanças climáticas, o déficit hídrico, a produtividade, os custos e as estratégias de irrigação, além de projeções de aumento da demanda por água.

Segundo René Sordi, presidente do GIFC, processo de diálogo foi reforçado por uma reunião prévia, realizada no dia anterior ao encontro principal, entre o Grupo e técnicos e executivos da ANA

Foto: Divulgação GIFC

Segundo Sordi, a reunião teve caráter quase formativo para a agência. “O GIFC atuou como um apoio técnico, praticamente um treinamento para a ANA sobre o setor de cana-de-açúcar. Falamos sobre produtividade, efeitos do clima, estratégias de irrigação, mostrando como a cultura tem sofrido com a escassez hídrica e como a demanda por água tende a crescer”, afirmou.

O presidente do GIFC destacou ainda que um dos principais resultados do processo foi o estreitamento da relação entre o setor produtivo e a agência reguladora. “A ANA se mostrou solícita, aberta a testes e projetos-piloto, e disposta a compreender melhor nossas dificuldades, mesmo sendo um órgão fiscalizador. Esse diálogo será fundamental para avançarmos em soluções equilibradas”, concluiu.