Setor sucroenergético alerta para impactos de tarifa de 50% dos EUA: “Risco de efeito dominó na economia brasileira”
30-07-2025
Presidente da SIAMIG Bioenergia crítica medida anunciada por Donald Trump e pede diálogo urgente entre governos para evitar colapso em cadeias produtivas
O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros gerou forte reação no agronegócio e na indústria nacional. Embora o setor sucroenergético não esteja entre os mais diretamente afetados, a decisão traz preocupação em regiões cuja economia depende da cana-de-açúcar, como Uberaba, em Minas Gerais. O município é um dos principais polos do segmento no estado, com mais de 80 mil hectares de cana plantada e produção superior a 6 milhões de toneladas por safra, sustentando milhares de empregos diretos e indiretos.
Em entrevista à Rádio JM, Mário Campos, presidente da SIAMIG Bioenergia (Associação da Indústria da Bioenergia e do Açúcar de Minas Gerais), avaliou os possíveis reflexos da medida. Segundo ele, o impacto mais imediato recai sobre os produtores do Nordeste, que exportam açúcar dentro da cota de 150 mil toneladas destinada aos EUA com preço acima do mercado internacional. Com a tarifa, esse comércio se torna inviável, desestruturando usinas dependentes dessa receita.
Embora Minas Gerais não participe dessa cota, Campos alerta para os efeitos indiretos: “Quando há um desarranjo em um elo da cadeia, o impacto se espalha. Podemos ter excedentes no mercado, queda de preços e dificuldade de escoamento que atingem regiões produtoras como a nossa”. Uberaba, que tem forte integração com outras praças produtoras, poderia sentir os reflexos de forma rápida caso o cenário de instabilidade se prolongue.
No etanol, o presidente da SIAMIG lembra que Brasil e EUA têm uma relação comercial marcada por altos e baixos. Atualmente, o Brasil aplica 18% de tarifa ao etanol norte-americano, enquanto os EUA cobram apenas 2,5% sobre o produto brasileiro. “Mesmo com fluxos menores nos últimos anos, essa decisão pode desequilibrar completamente o setor e colocar em risco a competitividade do nosso etanol”, avaliou.
O governo federal já criou uma comissão para tratar do tema e não descarta aplicar a lei de reciprocidade. Para Campos, no entanto, a retaliação direta pode ser perigosa. “O Brasil tem mais a perder. O mercado americano é diversificado e essencial para setores estratégicos. O caminho é o diálogo”, afirmou, reforçando a necessidade de atuação coordenada entre governo e setor produtivo.
Segundo ele, a tarifa de Trump tem motivações que vão além do comércio. “Há um componente ideológico que torna a negociação ainda mais delicada. Quando medidas assim são adotadas, desorganizam cadeias inteiras, como vimos com autopeças, aeronáutica, café, aço e suco de laranja, setores fundamentais para o país”.
Minas Gerais, de acordo com Campos, será impactada não apenas pelo açúcar, mas pela forte dependência de setores como café e aço, já afetados por tarifas anteriores. Ele alerta que a suspensão de exportações pode provocar fechamento de fábricas, desemprego e queda na renda. “Mesmo que alguns preços caiam internamente, o prejuízo geral supera qualquer possível benefício momentâneo”, enfatizou.
O presidente da SIAMIG também descarta a possibilidade de substituir rapidamente os EUA como destino. “No café podemos buscar novos mercados, mas em aeronáutica e suco de laranja os americanos são insubstituíveis no curto prazo. Além disso, dependemos de equipamentos e tecnologias importadas de lá para manter a indústria funcionando”, destacou.
O executivo finalizou defendendo a união de esforços para preservar a estabilidade econômica e elogiou a liderança do vice-presidente Geraldo Alckmin como interlocutor com Washington. “Se a tarifa realmente entrar em vigor em 1º de agosto, a pressão econômica virará pressão política. Precisamos estar preparados para negociar com responsabilidade e colocar o Brasil acima de disputas ideológicas”.
Redação com informações do JM Online

