Sucesso ou fracasso do sistema irrigado passa pela escolha da variedade
13-05-2025
Diferença de produtividade entre áreas irrigadas formadas com variedades responsivas e não responsivas pode chegar a 50 ton/ha
Por Leonardo Ruiz
O incremento de produtividade agrícola proporcionado pela irrigação irá variar em função da interação entre clima, solo, variedade e manejo. A partir do momento em que não há mais restrição hídrica, práticas agrícolas como adubação e controle de pragas, doenças e plantas daninhas passam a ter ainda mais importância, uma vez que serão elas as responsáveis por romper o teto produtivo dos canaviais.
Além das práticas citadas, a alocação de variedades é outro ponto que demanda bastante atenção, uma vez que a diferença de produtividade entre áreas irrigadas formadas com variedades responsivas e não responsivas pode chegar a 50 ton/ha.
René Sordi, consultor e presidente do Grupo de Irrigação e Fertirrigação em Cana-de-Açúcar (GIFC), afirma que as variedades são pontos-chave em qualquer tipo de manejo adotado na cultura da cana-de-açúcar, e na irrigação não é diferente. “Por conta disso, para obter sucesso nos projetos implantados, é preciso pensar na resposta dos genótipos que serão alocados.”
Nos últimos anos, alguns paradigmas foram quebrados: variedades não tão produtivas, mas ricas em sacarose, por exemplo, não irão performar melhor por conta da irrigação
Foto: Arquivo CanaOnline
Mas quais seriam as variedades ideias? Para René, são aquelas que vão propiciar melhores retornos econômicos em açúcar por área. “Nos últimos anos, temos quebrado alguns paradigmas. Pensávamos, por exemplo, que se colocássemos água em uma cana não tão produtiva, mas rica em sacarose, conseguiríamos fazê-la produzir bem. No entanto, estudos e experimentos de campo provaram que isso é um mito.”
Na visão do consultor, a melhor variedade será sempre aquela que se adapta melhor ao ambiente de produção. No entanto, algumas características são mais interessantes para um sistema irrigado, como boa brotação, porte ereto, alto perfilhamento e resistência às principais doenças.
AS CARACTERÍSTICAS MAIS IMPORTANTES PARA AS VARIEDADES QUE SERÃO UTILIZADAS EM CANAVIAIS IRRIGADOS
Irrigação altera microclima das áreas, tornando o canavial mais suscetível ao estabelecimento de doenças. Por conta disso, uso de variedades resistentes é ainda mais importante
Foto: Arquivo CanaOnline
René Sordi salienta que o alto perfilhamento é uma das principais características a serem buscadas em uma variedade que receberá irrigação. Ele explica que o incremento de produção em materiais com baixo número de perfilhos se dará através da expansão do diâmetro e altura da planta, e não do número de colmos. Grossa e alta, essa cana tornará dificil a operação.
Porte ereto é outra característica recomendada. Estima-se que apenas 1% de impureza vegetal possa reduzir o ATR em até 2,5kg. Dessa forma, uma cana tombada, que terá em torno de 9% de impurezas vegetais, terá o poder de diminuir o ATR em até 15kg. “É como se jogássemos pelo ralo todo o valor investido no projeto de irrigação.”
O consultor ressalta a importância de utilizar materiais resistentes às principais doenças da cultura. Segundo René, a irrigação altera o microclima das áreas, tornando os canaviais mais suscetíveis ao estabelecimento de doenças. Caso uma variedade menos tolerante seja implantada nesse ambiente, os danos serão agravados e, em alguns casos, irreversíveis.
Para René Sordi, as variedades são pontos-chave em qualquer tipo de manejo adotado na cultura da cana-de-açúcar, e na irrigação não é diferente
Foto: Arquivo CanaOnline
“Estudos já mostraram que a cana-de-açúcar começa a desenvolver sintomas de ferrugem marrom a partir de quatro horas de molhamento foliar, sendo que o aumento desse período para 13 horas eleva o número de lesões causadas pela doença. O mesmo se aplica à ferrugem alaranjada. O aumento do período de molhamento foliar combinado com temperaturas ideais diminui o período de latência e incubação da doença, favorecendo a expressão dos sintomas.”
Estudos como esses mostram como a irrigação age como um vetor para o estabelecimento de doenças, observa René. “Se já é importante usar variedades resistentes em áreas de sequeiro com histórico de doenças, em canaviais irrigados isso se torna imprescindível.”
René ressalta que o tema “variedade x ambiente irrigado” tem gerado muita discussão entre os profissionais do setor. Por conta disso, o GIFC realizará no dia 25 de setembro, no Hotel Nacional em São José do Rio Preto/SP, um encontro técnico intitulado "Irrigação em cana-de-açúcar e seus desafios: variedades responsivas, produtividade e colheitabilidade.” Saiba mais detalhes no site (www.gifc.com.br) e redes sociais do GIFC.

