Uma Sustentabilidade, Muitos Caminhos
10-08-2026

Uma Sustentabilidade, Muitos Caminhos - O que a ciência descobriu quando comparou, pela primeira vez, os principais conceitos da agricultura sustentável

Por: Luis Eduardo Pacifici Rangel, Especialista em Agropecuária Sustentável, Ex-Secretário de Defesa Agropecuária e Ex-Diretor de Análise Econômica e Políticas Públicas do MAPA e Membro do Conselho Científico do Agro Sustentável (CCAS) 

Se você acompanha os debates sobre sustentabilidade, provavelmente já se deparou com uma verdadeira sopa de nomes: agricultura regenerativa, agroecologia, agricultura de baixo carbono, agricultura conservacionista, agricultura climática, agricultura orgânica, intensificação sustentável, agricultura circular... A impressão é de que cada novo conceito representa um modelo completamente diferente de produzir alimentos.

Mas será que essas diferenças são realmente tão profundas?

Essa foi a pergunta que motivou este estudo. Em vez de discutir qual abordagem seria a "melhor", decidimos investigar uma questão anterior: o quanto esses conceitos realmente se parecem entre si? Até hoje, essa comparação era feita quase exclusivamente por revisões qualitativas da literatura, baseadas na interpretação dos pesquisadores. Nosso objetivo foi construir uma forma objetiva de medir essas relações e revelar como esses conceitos se organizam.

Como comparar conceitos?

Para isso, reunimos quinze das principais abordagens de agricultura sustentável descritas na literatura internacional, harmonizamos suas definições e desenvolvemos um processo de comparação baseado em análise semântica e atributos conceituais. O fluxo completo do estudo pode ser resumido na figura abaixo.

O processo parte da seleção dos conceitos, passa pela padronização das definições, construção de representações semânticas, integração dos atributos conceituais e, finalmente, identifica grupos de conceitos semelhantes por meio de análise de agrupamentos.

O resultado surpreendeu

O primeiro resultado já contrariou uma percepção comum. Em vez de encontrar conceitos completamente independentes, observamos que eles compartilham uma quantidade muito maior de características do que normalmente se imagina.

A análise revelou que essas quinze abordagens se organizam em cinco grandes famílias conceituais, cada uma representando uma estratégia distinta para alcançar um objetivo comum: tornar os sistemas agropecuários mais sustentáveis.

Esses agrupamentos apresentaram elevada consistência estatística, indicando que não são fruto do acaso, mas refletem padrões conceituais claros identificados na literatura científica.

Cinco famílias, um mesmo propósito

Em vez de uma lista de conceitos isolados, a pesquisa revelou uma estrutura organizada.

Família

Principais abordagens

Biodiversidade e serviços ecossistêmicos

Agroecologia, Permacultura, Agricultura Inclusiva da Natureza, Agricultura de Alto Valor Natural

Sistemas certificados

Agricultura Orgânica e Agricultura Biodinâmica

Eficiência e intensificação sustentável

Agricultura Circular, Agricultura de Carbono, Agricultura de Baixo Uso de Insumos Externos, Intensificação Ecológica e Intensificação Sustentável

Conceitos integradores

Agricultura Sustentável e Agricultura Climaticamente Inteligente

Conservação e regeneração

Agricultura Conservacionista e Agricultura Regenerativa

Essa organização mostra que muitas discussões atuais não ocorrem entre modelos concorrentes, mas entre abordagens que enfatizam aspectos diferentes de um mesmo processo de transformação da agropecuária.

Um mapa da agricultura sustentável

Talvez a imagem mais intuitiva do estudo seja o mapa conceitual obtido por escalonamento multidimensional.

Cada ponto representa uma abordagem. Quanto mais próximos os pontos, maior é sua similaridade conceitual. Os cinco agrupamentos aparecem de forma bastante clara, mostrando que conceitos frequentemente tratados como independentes compartilham fundamentos importantes, enquanto outros realmente ocupam posições distintas no espaço conceitual.

O que isso significa na prática?

A principal conclusão do estudo é simples, mas tem implicações importantes.

A diversidade de nomes utilizada para descrever a agricultura sustentável é maior do que a diversidade de ideias. Muitas abordagens diferem principalmente pelo foco — carbono, biodiversidade, certificação, solo ou clima —, mas convergem em princípios fundamentais como conservação dos recursos naturais, aumento da eficiência produtiva, resiliência climática e manutenção da produtividade.

Essa constatação ajuda a explicar por que diferentes países, empresas, organismos internacionais e políticas públicas frequentemente utilizam terminologias distintas para tratar de objetivos bastante semelhantes.

Uma nova forma de organizar o debate

Mais do que criar uma nova classificação, este estudo propõe uma linguagem comum para compreender a sustentabilidade na agropecuária.

Uma taxonomia quantitativa pode facilitar a construção de indicadores comparáveis, apoiar avaliações internacionais, reduzir ambiguidades conceituais e contribuir para políticas públicas mais integradas. No contexto brasileiro, essa visão dialoga diretamente com iniciativas como o Plano ABC+, que reúne diferentes estratégias de sustentabilidade dentro de uma mesma política pública nacional.

Uma pergunta para o futuro

Talvez a maior contribuição desta pesquisa não seja responder qual abordagem é a mais sustentável.

Talvez a pergunta correta seja outra.

E se agricultura regenerativa, agroecologia, agricultura climática, agricultura conservacionista e intensificação sustentável não forem modelos concorrentes, mas diferentes caminhos para alcançar uma mesma sustentabilidade?

Se essa hipótese estiver correta, o futuro da agropecuária poderá depender menos da disputa entre rótulos e muito mais da capacidade de integrar essas diferentes abordagens em estratégias coerentes, mensuráveis e adaptadas às realidades de cada território.