Usina Da Mata amplia projetos de irrigação para enfrentar mudanças climáticas e manter produtividade dos canaviais
11-11-2025

Com cerca de 78 mil hectares cultivados, a Da Mata espera alcançar 5,1 mi/ton processadas na próxima safra. Foto: Divulgação Usina da Mata
Com cerca de 78 mil hectares cultivados, a Da Mata espera alcançar 5,1 mi/ton processadas na próxima safra. Foto: Divulgação Usina da Mata

Com verões mais longos, chuvas escassas e altas temperaturas, unidade intensifica investimentos em irrigação tecnificada e aposta no gotejamento para garantir safras estáveis e resilientes no interior paulista

Nas últimas três décadas, o município paulista de Valparaíso tem enfrentado uma silenciosa e persistente transformação climática: chuvas cada vez mais escassas, verões longos e secos e temperaturas médias em constante elevação. Diante desse cenário, os canaviais da usina Da Mata, localizada na região, passaram a conviver com novos desafios, exigindo uma resposta estratégica por parte dos gestores da unidade: ampliar os projetos de irrigação.

Fundada em maio de 2006, a Da Mata surgiu da união entre o Grupo AGP Negócios e Participações S/A e a BRASIF. Em 2026, completará 20 anos de atuação no setor bioenergético nacional, produzindo açúcar, etanol, levedura e energia elétrica com excelência. Com cerca de 78 mil hectares cultivados, a unidade possui, majoritariamente, ambientes de produção B (27%), C (42%) e D (20%), e prevê moer 4,5 milhões de toneladas de cana nesta safra — com expectativa de chegar a 5,1 mi/ton na próxima.

Apesar da forte expertise técnica e do histórico de altas produtividades agrícolas, os impactos do clima imprevisível vêm exigindo reinvenções constantes por parte da empresa. A principal estratégia para conter esse cenário tem sido o investimento em irrigação tecnificada, vista como ferramenta fundamental para manter a estabilidade produtiva e garantir competitividade no mercado.

Em setembro, a coordenadora de irrigação da Usina Da Mata, Graziela Cavalcante Nunes, participou do Encontro Técnico “Irrigação em cana-de-açúcar e seus desafios: variedades responsivas, produtividade e colheitabilidade”, promovido pelo Grupo de Irrigação e Fertirrigação de Cana-de-açúcar (GIFC). Na ocasião, a profissional forneceu detalhes sobre o avanço dos projetos de irrigação na empresa.

Graziela Cavalcante: “Em pouco tempo, passamos de sete frentes de irrigação e fertirrigação para 21. É um plano ambicioso, mas essencial para driblarmos os efeitos do clima”

Foto: Divulgação GIFC

Segundo ela, dos 78 mil hectares da unidade, 46,6 mil ha (60%) já contam com algum tipo de irrigação. São 20 mil hectares com irrigação em duas lâminas, 15 mil com fertirrigação, 10 mil com irrigação localizada e 1.600 hectares com sistema de gotejamento. “Até pouco tempo, operávamos com sete frentes de irrigação e fertirrigação. Hoje, já são 21 — sendo 12 de água e 9 de vinhaça. É um plano ambicioso, mas essencial para driblarmos os efeitos do clima", destacou.

Nos próximos anos, o foco da expansão deve recair sobre o gotejamento, modalidade que tem apresentado excelente desempenho em aumento de produtividade e longevidade dos canaviais. A meta é mais do que dobrar a área atual, saltando de 1.600 para 4.000 hectares.

“A irrigação por gotejo tem entregado 108 toneladas por hectare na média dos cinco primeiros cortes, contra 63 ton/ha do sequeiro. Essa diferença mostra o potencial da tecnologia, que tem sustentado canaviais de três dígitos até o décimo corte, com incrementos de até 40 toneladas em relação às áreas não irrigadas”, explica Graziela.

A variedade destaque nessa modalidade é a RB92579, que chegou a registrar 173 ton/ha em uma área de primeiro corte e 136 ton/ha, em uma de quarto. Outros materiais que vem performando bem em gotejamento são a CTC4 e a RB972501, com canas de terceiro corte alcançando de 120 ton/ha a 130 ton/ha.

Usina Da Mata testa sistema de Escoamento Superficial Difuso com resultados promissores

ESD busca distribuir o escoamento da chuva de forma mais uniforme pelo terreno, reduzindo a concentração de fluxo e, consequentemente, diminuindo riscos de erosão e assoreamento

Foto: EAG Projetos Agrícolas

A usina Da Mata está apostando em soluções inovadoras para otimizar a produção agrícola e reduzir impactos ambientais. Como parte desse movimento, a empresa implantou um projeto piloto de Escoamento Superficial Difuso (ESD) em uma área de 285 hectares. A iniciativa tem caráter experimental e já apresenta resultados positivos.

Esse sistema busca distribuir o escoamento da chuva de forma mais uniforme pelo terreno, reduzindo a concentração de fluxo e, consequentemente, diminuindo riscos de erosão e assoreamento. Diferente do escoamento concentrado — que forma canais ou enxurradas —, esse sistema permite que a água infiltre de maneira mais equilibrada no solo, sendo absorvida com maior eficiência.

Coordenadora de irrigação da usina Da Mata, Graziela Cavalcante Nunes explica que, na área do experimento, todos os terraços - e também alguns carreadores -foram planejados para que a água escoe de maneira difusa, utilizando canais condutores ou os próprios sulcos de plantio como meio de transporte até os sistemas de drenagem. Isso permite que a hidratação do solo ocorra de forma mais eficiente e natural.

A adoção do ESD já resultou em uma série de benefícios. A reorganização dos carreadores e linhas de plantio otimizou tanto o sistema de irrigação quanto as operações no campo, contribuindo para uma redução de 35% nas manobras durante as operações de plantio e colheita. Esse novo sistema também permitiu a ampliação da área irrigada em 5%, maximizando o aproveitamento do terreno disponível. Além disso, ao utilizar a gravidade como aliada no transporte da água, a usina conseguiu diminuir significativamente o consumo de energia elétrica, aumentando a eficiência do processo.

Outro destaque foi a economia gerada com a diminuição de voltas de final de linha e de aberturas secundárias, o que impactou positivamente nos custos operacionais. O tráfego de máquinas passou a ser realizado de maneira mais estratégica, reduzindo a compactação do solo e contribuindo para sua preservação. No sistema de irrigação, os resultados também foram expressivos: houve aumento no rendimento operacional dos tubos gotejadores, elevando a eficiência do processo e reforçando o potencial produtivo das áreas atendidas por essa tecnologia.

“Essa iniciativa demonstrou que o investimento em planejamento e inovação no campo pode resultar em ganhos ambientais, econômicos e operacionais significativos para a empresa. Diante desses resultados, estamos estudando a ampliação desse modelo para outras áreas.”