Vantagem do hidratado frente ao açúcar de Nova York recua em Março
06-04-2026
Dados preliminares da primeira metade de março mostram que a vantagem do hidratado negociado no mercado físico frente aos preços do açúcar bruto em Nova York recuaram de +37% para +28%; ganhos no açúcar em Nova York e estagnação do hidratado são pivô para este movimento
Por: Maurício Muruci
Os dados mais recentes de cálculo de arbitragem entre o etanol hidratado negociado no mercado físico e o açúcar bruto de Nova York mostram uma redução importante da vantagem do hidratado na primeira metade de março contra a média final de fevereiro. Para estes cálculos a SAFRAS & Mercado considera os preços de negociação do hidratado no mercado físico contra os preços do açúcar bruto em Nova York sobre a tela Maio/26, ambos convertidos em centavos de dólar por libra-peso e colocados dentro da usina, na modalidade PVU.
A média final de fevereiro foi um período de vantagem do hidratado no mercado físico frente ao açúcar bruto de Nova York na faixa exata de 37%. Porém, agora na primeira metade de março esta vantagem recuou para o nível de 25,88%. Esta queda de pouco mais de 8 pontos porcentuais na vantagem do hidratado na arbitragem contra a primeira tela do açúcar bruto de Nova York basicamente ocorreu em função dos ganhos do açúcar no mercado internacional. Na média final de fevereiro o açúcar bruto em Nova York, também sobre a tela Maio/26 deteve cotações na faixa de US$/cents 13,86.
Porém a média da primeira metade de março apresentou uma alta de 3,96% avançando sobre o patamar dos US$/cents 14,41. O grande detalhe é que, dentro da usina, na modalidade PVU, o açúcar de Nova York teve uma alta ainda maior, de 4,61%, quando comparamos a média final de fevereiro em US$/cents 12,05 contra a média da primeira quinzena de março em US$/cents 12,61. Porém a SAFRAS & Mercado alerta que estes padrões de preços do açúcar, embora expressivamente mais altos, seguem oscilando abaixo do custo médio de produção das usinas do Centro-Sul que oscila entre US$/cents 13,50 a US$/cents 13,80.
Na visão da SAFRAS & Mercado, ainda que a arbitragem do hidratado contra o açúcar bruto de Nova York esteja enfrentando uma queda de 8 pontos porcentuais em março, amparados solidamente em avanços de 4% nas cotações do açúcar bruto de Nova York, as usinas seguirão firmes em manter os seus níveis planejados de mix de produção a favor do etanol em função da manutenção da linha de preços do açúcar de Nova York dentro da usina abaixo do custo de produção, ao menos nas médias gerais de fevereiro e da primeira quinzena de março. Isto deve acontecer mesmo que na outra ponta o etanol hidratado até mesmo apresente alguns níveis de redução em suas médias.
Em fevereiro o hidratado teve preços médios na faixa de R$ 3,62 por litro, com base em Ribeirão Preto. Na primeira metade de março o hidratado teve uma desvalorização de 1,22% frente ao preço médio de R$ 3,58 o litro que pode ser observado na região. Convertidos em centavos de dólar por libra-peso o hidratado passa para uma queda ainda maior, de 1,97%, com os preços saindo de US$/cents 16,51 em fevereiro para US$/cents 16,18 na primeira metade de março. Este movimento de queda fora ampliado diante da valorização do real frente ao dólar na faixa de 0,54% no mesmo período.
Ainda assim a SAFRAS & Mercado reforça a leitura de que a queda marginal nos preços do hidratado, combinada com a alta acentuada no açúcar, não fez com que este último voltasse a oscilar acima do seu custo de produção e, com isso, as usinas seguirão mantendo firmes os seus planejamentos de mix de produção majoritariamente voltados ao etanol ao longo do restante de março.
Trump anuncia uma trégua na guerra contra o Irã
Além da postura firme na produção do hidratado diante da falta de capacidade do açúcar de superar os seus custos de produção na bolsa de Nova York, as usinas se depararam agora, no início da terceira semana de março, com a notícia de que os Estados Unidos darão uma pausa de cinco dias nos ataques contra o Irã com o objetivo de negociar a preservação das instalações de energia do Oriente Médio. O resultado disto sobre o açúcar e o etanol é bem simples: queda nos preços internacionais do açúcar e algum nível de baixa moderada no etanol com as usinas intensificando a sua postura em produzir mais etanol do que o açúcar.
A queda do açúcar bruto em Nova York responderá basicamente aos recuos fortes de mais de 9% do petróleo também na bolsa de Nova York, visto que o mesmo representa um terço do índice CRB. Logo, os movimentos de vendas em commodities deverão ser alastrados ao longo da terceira semana de março. Com isto, a SAFRAS & Mercado alerta que o atual driver Maio/26 deverá sair do seu recente topo em US$/cents 14,80 para níveis de volta aos US$/cents 14,35, que é o preço o qual a Média Móvel Exponencial de 50 dias aponta atualmente.
A nossa dúvida é quanto ao timming da operação, se ela ocorrerá ainda ao longo desta terceira semana de março ou demandará ainda a semana que vem, a quarta semana do mês. Porém, a SAFRAS & Mercado já vinha alertando desde o início da guerra que o único ponto de sustentação dos preços do açúcar bruto em Nova York ocorria em função dos ganhos acumulados do petróleo na mesma bolsa. Agora, a redução do risco geopolítico no Oriente Médio desmanchará o único vetor de sustentação sólido da alta acentuada que maio/26 vinha apresentando desde o início de março, oscilando junto com a evolução do conflito. Desde o início deste mês a SAFRAS & Mercado tem pontuado que o avanço do açúcar das regiões abissais abaixo dos 13 cents para os níveis atuais acima dos US$/cents 14,50 não ocorria em função dos fundamentos, e sim única e exclusivamente em função dos movimentos do petróleo.
Ajuste de alta na gasolina incerto
Outro ponto de alerta que a SAFRAS & Mercado reforça atenção é sobre a redução ou, até mesmo, da neutralização total, da pressão de alta sobre os preços da gasolina no mercado interno. Ao longo da segunda semana de março a presidente da Petrobras pontou que se a guerra se prolongasse por muito tempo a estatal tenderia a corrigir parte da defasagem dos preços internos. Na segunda-feira, dia 23 de março, os dados da Abicom mostram um cenário em que a gasolina no mercado interno se encontra 55% a 64% abaixo dos preços internacionais, enquanto o diesel se encontrava entre 74% a 86% abaixo dos preços externos.
O anúncio da trégua na guerra e a queda de 9% no petróleo que veio na sequência serve agora como um argumento para a estatal segurar por mais uma ou duas semanas um eventual ajuste de alta na gasolina a qual detinha maior pressão pelo movimento. Agora a estatal poderá retomar o seu argumento anterior de que ela não repassa volatilidade externa para os preços da gasolina. O anúncio da trégua serve agora como ponto de ancoragem para o represamento da gasolina com o objetivo de esperar o petróleo recuar ainda mais que os 9% das primeiras horas do pregão da segunda-feira.
Com isto o etanol hidratado no mercado físico perde agora um importante movimento de alta que poderia ocorrer ao longo desta ou da semana que vem, o que poderia impulsionar os seus preços em dois dígitos exatamente em um ponto crucial de baixa que se desenha que é o início da safra nova 2026/27 que ocorre em menos de 15 dias, em abril. Esta safra, como temos alertado, com forte tom de carregamento do mix de produção para o etanol, o que deve colocar ainda maior pressão de baixa sobre os mesmos. Ainda assim a SAFRAS & Mercado alerta que o hidratado seguirá com preços acima do açúcar ao longo de março, porém na nova escala dos 20% e não mais dos 30% como tem sido visto desde o início de 2026.
Fonte: Safras & Mercado

